O Fio da Inocência

2020-05-04 · 2 · 356

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Este é um filme atordoante. Ele começa como um drama, mas vai tomando aspectos de thriller, mas nunca perde seu primeiro tom. Esquizofrênico, nos apresenta um personagem carismático, mas olhe de novo e verá outra coisa. Porém, o carisma continua lá em alguma lugar. E isso bate no espectador como um jogo moral difícil de se desvencilhar.

A atuação de Bob Hoskins é a peça fundamental dessa engrenagem distorcida da realidade, em que o que poderia ser uma simples história de desilusão amorosa na juventude e as lembranças de infância de um inspetor de alimentos se torna uma tensão difícil de se ver, tanto nos dramas quanto nos thrillers. Ao acompanhar os dois o clima fica muito pesado e irresistível.

A trilha sonora é uma pequena obra de arte à parte. Dissonante e nunca nos entregando um ritmo fixo, a obra de Mychael Danna comenta nosso estado de espírito com perfeição conforme caminhamos pela mente de um psicopata ao mesmo tempo que testunhamos em desgraça e incompreensão que ele não pensa como nós. Em nenhum momento, nem na hora de ser potencialmente pego.

A direção de Atom Egoyan, ao contrário do pretensioso O Doce Amanhã conversa conosco com os flashbacks, ou os vídeos do programa de TV em que a mãe do inspetor brilhava ao lado do menino gordinho que ele era, na solidão e uma pedra no sapato da mãe, ainda que não parecesse. No entanto, assim que descobrimos os objetivos dele com uma criança que vai nascer possivelmente sem pai, entendemos ele agora adulto sem nenhuma palavra precisando ser dita.

Visual e visceral, este filme poderia cair facilmente no ridículo nas mãos erradas, mas acaba se tornando um trabalho inestimável de criação de atmosfera e de estudo de personagens. Mais ele do que ela, pois nada nos tem a acrescentar uma garota que engravida do namoradinho e corre em busca dele. Esse é o lugar-comum. Hoskins eleva o jogo ao nível de Hannibal, mas sem precisar de uma Starling, pois ele seria incapaz. É a conjunção entre a inocência dupla e uma certa maldade egoísta a fórmula perfeita de um filme difícil de esquecer.

Felicia's Journey (Canada, United Kingdom, 1999). Dirigido por Atom Egoyan. Escrito por William Trevor, Atom Egoyan. Com Bob Hoskins, Arsinée Khanjian, Elaine Cassidy, Sheila Reid, Nizwar Karanj, Ali Yassine. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·