O Gambito da Rainha: xadrez para os fracos

Este é um rascunho e está sujeito a mudanças.

Esta série da Netflix, que por isso me dá certa alergia, só me chamou a atenção porque tem xadrez no meio, do qual sou aficionado, mas depois descobri que é do mesmo roteirista de Logan. A história é de uma garotinha que se tornou órfã de mãe após um trágico acidente de carro e no orfanato aprende xadrez apenas observando o zelador e jogando em sua mente. Ela toma calmantes, naquela época medicação dada para crianças, e se torna uma viciada, mas consegue antes de dormir enxergar do teto de seu quarto um tabuleiro gigante onde analisa suas partidas.

Sabemos que ela não irá se livrar de nenhum dos dois vícios porque o filme começa com ela já adulta e a série inteira é quase um enorme flashback. Vemos a Beth Harmon do presente uma bagunça, que mistura sexo, drogas e xadrez, uma mistura que já existe em sua personalidade desde o início e o "filme" de sete horas tem uma forma peculiar de adicionar isso logo no primeiro episódio, com ela ainda criança, pela curiosidade com que ela observa os garotos mais velhos de longe.

Esta é uma minissérie de época com sete episódios que aborda temas do momento para ser vendido, como protagonismo feminino, além de um invejável guarda-roupas vestido por Beth, que não é nada feia. Porém, ao mesmo tempo há o tema nada popular do xadrez.

Nota-se que todas as características da protagonista, Elizabeth Harmon, foram bem estudadas, como as menções sobre detalhes técnicos do jogo para os fãs, mas também o suposto autismo ou desvios de atenção de uma garota traumatizada na infância e de personalidade multifacetada. Ela vê sua mãe queimando as roupas durante a última noite em casa e pega para si um livro de matemática, mas já adulta cada aparição parece estar em um desfile de moda.

É possível que seja baseado em alguma biografia, mas na verdade é baseado em um romance de Walter Tevis de 1983. A atriz mirim, Isla Johnston, foi uma boa escolha, talvez até melhor que a atriz já adulta, que é Anya Taylor-Joy, a garota de Fragmentado e Vidro, ambas sequências de Corpo Fechado. Claro que a referência aqui é problemas mentais e o formato do crânio e dos olhos esbugalhados da atriz remetem a essas lembranças.

A censura da série é 16 anos, o que sempre é um bom sinal. A trilha sonora caminha por obviedades dramáticas de dar sono. A direção é competente em fazer fluir uma história que começa morna e que ganha ritmo por causa desta ser uma série de sete horas e não um filme de duas. Beth monta seu tabuleiro mental no teto do seu quarto e joga simultânea com vários garotos de exibindo. A conotação sexual de uma garota de dez anos ao lado dos marmanjos é sutil e não tão eficaz. Mas a série não se solta tanto quanto poderia. É pudica como qualquer obra norte-americana mainstream. Outro traço comercial de um projeto caro, bem produzido. Exceto no roteiro, tão burocrático quanto os campeões russos da história.

Todo e qualquer detalhe sobre torneios de xadrez, incluindo as regras com tempo, adiamento de partidas, fases do jogo, discussão sobre aberturas, rating, será abordado de maneira didática e nada orgânica, inserida no meio da história e comentado por um texto monótono dito por algum plot device (personagens inseridos propositadamente para dizer as falas). As descrições sobre o jogo são mais enfadonhas para quem o conhece do que o jogo em si para o leigo espectador, mas não são úteis para o último, que provavelmente não está interessado em xadrez, ou se está, veio para o lugar errado.

A escalada da moça também é conhecida. Não há reviravoltas em uma história em que os pequenos dramas da protagonista são minimizados ou pelo roteiro ou pela própria atuação monocromática de sentimentos. E justamente por isso, apesar de não ter sido uma escolha muito boa, Anya Taylor-Joy faz milagres em seu papel, extraindo de suas expressões e movimentos em cena mais significado que os diálogos monótonos e mecânicos do roteiro. Ela é uma enxadrista genial e problemática, apesar do roteiro tentar de maneira covarde minimizar seus traços que a tornam quem é.

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