O Homem Que Matou Dom Quixote

O Homem que Matou Dom Quixote é péssima escolha de papel para Adam Drive, que não funciona na comédia física. Porém, pior ainda é a história sem pé nem cabeça do filme, que tenta achar sua desculpa através do espírito da obra-prima de Miguel de Cervantes. O resultado sai pior que o imaginado porque não esperamos que os ideais mais nobres do livro sejam usados como muleta narrativa. Ninguém iria tão baixo. Mas é exatamente o que esse filme faz.

A história gira em torno de... bom, isso você vai ter que descobrir. Começa com um diretor de publicidade excêntrico (?) que está filmando um comercial que utiliza o famoso clichê de Dom Quixote, seu fiel escudeiro Sancho Pança e os moinhos de vento que são confundidos por gigantes. A partir da busca por inspiração (??) o diretor reencontra seu antigo trabalho de faculdade que também era sobre Dom Quixote. Filmando próximo da locação onde encontrou seu Quixote perfeito para as filmagens (além da donzela perfeita) ele passa a viver desventuras com seu antigo ator, agora alucinando, mais todos os envolvidos diretamente com seu destino pouco menor que seus sonhos.

Tudo não passa de uma farsa, e desde o começo o espectador pode perceber. A cidade para onde ele vai reencontrar seu antigo cast se chama Sueños (sonhos em espanhol), além de que a situação para o diretor vai ficando cada vez mais estranha, com direito a participações cada vez maiores e grandiosas do resto do elenco, em um emaranhado que só uma direção de arte em pleno vapor para produzir.

O problema é que tudo isso está sendo comentado por uma trilha sonora enfadonha e que ao mesmo tempo nos entrega uma grandiosidade que sabemos que não existe. O sujeito está se dando conta de seus próprios delírios, mas Adam Drive, como comentei, não está seguindo a essência de um papel quixotesco, estando mais para um coadjuvante espectador. Isso gera uma perda de identidade do público, que não tem muita certeza de quem é o herói aqui, já que o diretor é cínico e antipático, apesar de atrair praticamente todas as mulheres do longa.

Essa é a bola fora mais fora da carreira do diretor ex-Monty Python Terry Gilliam, que exibe no início dos créditos o projeto que foi construído e... desconstruído em 25 anos. Bom, há algo que dizem de projetos intermináveis que são revistos de tempos em tempos: é provável que ele fosse melhor dentro de uma gaveta para sempre.

Wanderley Caloni, escrito para Cinemaqui, 2018-10-26 00:00:00 +0000

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