O Homem Que Mudou o Jogo

Brad Pitt é um ator com um controle de personagem invejável. Podemos acompanhar sua trajetória em papéis mais exóticos como o do vampiro Louis (Entrevista com o Vampiro), do maníaco Jeffrey Goines (Os 12 Macacos), do inconsequente Tyler Durden (Clube da Luta) e do cômico Tenente Aldo Raine (Bastardos Inglórios) e compararmos com papéis mais contidos ou dramáticos como o pai de família em A Árvore da Vida, o detetive David Mills em Seven e o gerente de um time de beisebol Billy Beane, papel que desempenha em O Homem que Mudou o Jogo que faz ficarmos em dúvida se existem dois, três ou mais clones do ator escondidos e revelados em momentos pontuais de sua carreira.

A história é baseada em um livro que por sua vez é baseada em fatos reais ocorridos com o gerente geral do time de beisebol Billy Beane do Oakland Athletics. Com o roteiro assinado (depois de vários conflitos com a produtora Sony) pelos ótimos Steven Zaillian (Os Homens que Não Amavam as Mulheres versão 2011) e Aaron Sorkin (A Rede Social), a direção documental de Bennett Miller, que usa com o diretor de fotografia Wally Pfister uma granulação maior justamente para ampliar a temática para a vida real, acerta em manter os atores parados e dialogando a maior parte do tempo, dando ênfase em suas performances e facilitando nossa identificação com a história e os personagens. Porém, acerta mais uma vez em determinados momentos se deixar levar por uma abordagem mais poética, mas que exatamente por refletir a realidade já mostrada se torna tão mais forte e tão mais presente em nossas mentes.

Ainda sobre o tom documental, os sons fazem parte da receita usada por Miller, além de possuírem a dupla função de identificar quando Billy Beane está acompanhando os jogos e quanto não está, como na belíssima introdução de seu personagem em um estádio vazio e escuro, no momento em que ele decide se deixa o rádio ligado ou não, ou mesmo quando em determinado momento ele retorna para o estádio onde ocorre um jogo determinante para sua equipe e pode-se ouvir a diferença de energia pelo som dos torcedores em volta em contrastre com seus momentos de solidão.

E se o filme pode soar parado e monótono, de uma forma geral existe muito mais por trás dos belos diálogos de Zaillian e Sorkin e dos comportamentos de seus personagens do que a princípio possa parecer. Podemos dizer que o filme em si começa e termina como uma fábula do beisebol, mas que internamente, nas entrelinhas, se transforma em algo mais, a ponto de representar uma lição ou filosofia de vida, como um inspirado discurso sobre o que ocorre com as pessoas que ousam mudar qualquer sistema e o que ocorre em seguida com os que evitam mudar.

Mais interessante é notar que na dinâmica da história, mesmo com toda a importância de Billy Beane para o êxito de sua controversa equipe ele não é a estrela absoluta da história. Conta com a ajuda de Peter Brand (Jonah Hill), um economista brilhante que não se curva perante décadas de experiência e intuição esportiva, apesar de timidamente expor seus pontos de vista. É nessa dicotomia entre a especulação de jogadores virtuosa de Billy e a energia interna da convicção inabalável da ideia radical de Peter que conseguimos sentir as estruturas dos estádios seculares e dos treinadores inflexíveis sendo postas em cheque, ainda que lentamente e sem muita fé.

Aliás, fé, razão e intuição são conceitos colocados na mesa a todo momento, e mesmo nós, que assistimos de fora, ficamos com dúvidas durante todo o trajeto. Muitos sairão da sala de exibição convictos que sorte ou talento fazem toda a diferença do mundo, e outros sairão deixando essa convicção na poltrona. De uma forma ou de outra, não dá pra negar que a figura do eterno perdedor não está nas derrotas, mas no pensamento que o define. E uma vez que a pessoa se define perdedora, não há vitórias suficientes que a faça mudar de ideia.

Wanderley Caloni, 2012-03-06

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