O Homem Que Virou Suco

Wanderley Caloni, 2020-04-26.

O pacote comunista completo anos 80 em um filme imperdível. Ele retrata São Paulo nessa época de maneira tão dinâmica e vibrante que se torna um documentário. Ele desbrava esse preconceito e esses maus tratos com o nordestino sem filtros, e com isso revela não uma ferida do passado, mas um motivo separatista: nordestinos e sulistas são povos distintos com culturas conflitantes.

Seu herói, interpretado por José Dummont, faz Deraldo e Severino, o mesmo cabra da peste em reencarnações que levaram linhas da vida distintas. Um deles quer ser poeta na grande capital e trabalhar que é bom nada. O outro quer o poder acima de tudo e acaba sendo mau visto por todos os lados. O poeta é repentista, e de repente você não quer mais deixar de acompanhar sua história de abusos e miséria. Ah, como a miséria é um prato cheio de aventuras em nossa terra!

Estão ampliando o metrô da cidade e Deraldo vai lá trabalhar. Tocam um vídeo imperdível, que posso jurar que é real, ou o foi na época, que mostra que aqui na cidade grande o cabra-macho não pode se dar ao luxo de ser um indivíduo e ter seus costumes estranhos de resolver tudo na peixeira. Ele se revolta com uma barata na comida e causa transtorno onde que passa. O que o filme de João Batista de Andrade quer, uma cartilha de protesto em todos os ambientes que o capitalismo gerou, acaba passando despercebido, de tão comum o tema patrocinado por governos como o nosso, quando esta película foi restaurada em 2006 pela Petrobras no meio de casos de corrupção. O que fica em alto relevo é a incapacidade do nordestino se encaixar neste mundo. A única coisa que ele consegue fazer, e mal, é trabalhar e reclamar. Eis o manifesto comunista pós-escassez.

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