O Invasor

2019-08-25 · 3 · 541

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

O Invasor é um experimento da época de reabertura do cinema nacional, lá pelo final dos anos 90 e início dos anos 2000. O diretor Beto Brant tinha até um milhão para gastar e realizaram o que se chamou de filmagens de intervenção. Funciona assim: você “invade” as locações e consegue um tempinho naquele local, geralmente com até não-atores que estavam no momento, de um restaurante, um bar, uma boate, e filmam a cena com os personagens. Barato, colaborativo e inovador.

O resultado disso é que Brant precisa criar uma narrativa que não precise de decupagem ou muito enquadramento de suas cenas. Todas as cenas do filme são feitas com câmeras em movimento, pois elas estão de fato invadindo o local de filmagem para a cena, e não se preparando desde o começo do dia com iluminação, cenário, etc.

Isso torna o título “O Invasor” de uma ambiguidade admirável se compreendermos o processo da filmagem com a história que o filme quer contar, que é uma história da violência e da força. Quando dois sócios encomendam a morte do terceiro através de um assassino de aluguel, isso se vira contra eles quando o assassino começa a tocar o terror na empresa deles. E quem é que vai falar alguma coisa para alguém que não pensa duas vezes em tirar uma vida a mais do mundo?

Além do desafio das filmagens para o diretor há também o desafio redobrado para os atores. Marco Ricca, Alexandre Borges e, principalmente, Paulo Miklos, que faz o assassino, precisam lidar sua mise en scène com o corpo inteiro, e não apenas as expressões do pescoço pra cima, pois a câmera passeia pelo local e os personagens precisam estar de corpo e alma no projeto.

Miklos faz Anísio, um rapaz da periferia de SP que não pensa duas vezes antes de aceitar um dinheiro fácil para dar cabo de um bacana. Ele é cheio das gírias, é folgado e está pronto para tomar conta de seus negócios. O ator obviamente e acertadamente se inspirou em Scarface na construção de seu personagem, pois perto do final do filme, já tendo os dois sócios na palma da mão e estando com a filha de suas vítimas, está usando um roupão extravagante e preparando seu futuro em uma atmosfera que soa deliciosamente irreal.

O problema do filme como um todo são suas viradas, principalmente no terceiro ato. Elas não foram construídas de acordo, com o timing necessário, e quando ocorrem soa tudo muito forçado. Faz sentido se você pensar no roteiro, mas a forma como é apresentada para o espectador é muito jogado e sutil demais. Fora que o filme insiste em realizar diversos vídeo-clipes mostrando os bairros pobres da cidade ao som de rap em um formato quase documental que não colabora muito para a história, exceto a diferença de distância da vida daquelas pessoas para com a região central da megalópole.

De qualquer forma, estamos testemunhando o engatinhar do cinema brasileiro após um longo hiato, e Beto Brant é um dos responsáveis por esse renascer, o realizando com louvor. O Invasor é um filme de referência. Não é nada demais, mas ao analisarmos as condições com que foi feito, ele foi muito bem-vindo ao momento da cinematografia local.

The Trespasser (Brazil, 2001). Dirigido por Beto Brant. Escrito por Marçal Aquino, Beto Brant. Com Marco Ricca, Alexandre Borges, Paulo Miklos, Mariana Ximenes, Malu Mader, Chris Couto. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·