O Mistério de Silver Lake

Andrew Garfield é o Homem Aranha pop e aqui ele vive em um mundo onde roubaram suas memórias de infância e substituíram por uma teoria da conspiração. No meio há sexo, peitinhos, metalinguagem e referências de montão. A direção se diverte imensamente, assim como a trilha sonora. Ambos evocam tempos eternos do cinema mudo e o cinema dos anos 60 de Alfred Hitchcock, mas acaba atrapalhando um roteiro competente, intrincado, cheio de detalhes que parecem soltos e quenão estão (se você pensar direito). O filme é divertido, e ter um elenco desconhecido contribui. E por isso Garfield não está bem. Mal escalado, ensaia um personagem tragicômico sem a postura dramática. Seu peso é ter perdido a mulher. Ó dó. É como o patético Ashton Kutcher em Efeito Borboleta (que também perde feio para o resto do elenco, em especial os da fase mirim da história). É engraçado repensar em nossas influências e na junção do novo e velho, mas parece haver um limite até onde isso é bom. Com certeza o limite fica antes das duas horas e meia de projeção. Faz lembrar outras histórias envolventes com um pé na fantasia, como o inequecível Veludo Azul de David Lynch (1986). No entanto, enquanto Blue Velvet possuía um elenco com aspirações juvenis, mas com motivações adultas, que atribuem peso à narrativa, Silver Lake é um filme nu, com carência moral, o que impacta seu final decepcionante, incluindo a reviravolta feita para fãs mais inocentes de Donnie Darko terem esperança de um revival, se esquecendo que este é um projeto comercial e planejado para ser um sucesso, e não uma produção independente obscura de estreia que acaba arrebatando um vácuo que merecia a obra avassaladora de Richard Kelly. O diretor de Silver Lake é David Robert Mitchell em seu terceiro trabalho, sendo que ainda não chamou a atenção. Não é agora que o fará com esse longa-metragem bem longo, pop apelativo com a desculpa de crítico, e que assim como a série patética Stranger Things apela para a referência pela referência. Mas não me levem a mal. O filme é bom, levemente divertido e está no caminho certo. Devemos de fato passar a mão na cabeça de James Dean. Devemos aguardar aos pés de Newton por um novo caminho para nos salvar. A metalinguagem implícita está correta. O que não quer dizer que o filme esteja.

Wanderley Caloni, 2022-06-13 20:00:18 -0300

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