O Palhaço

2011-11-06

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

É muito difícil escrever sobre filmes ruins, atacando às vezes sem sentido (aparente) e muitas vezes com uma visão precipitada ou exacerbada. Por outro lado, falar de um filme virtuoso em tantos aspectos como é o caso de O Palhaço pode ser uma atividade prazerosa e ao mesmo tempo um ato de injustiça: por deixar tantos detalhes do lado de fora.

Mesmo assim, vale a pena dissecar filmes bem produzidos como esse, pois o fato do assunto não ter se esgotado é prova da competência e da riqueza do filme, que ainda provavelmente resistiria à uma segunda, terceira e quarta análises. Melhor ainda: por sua história ter contornos universais, mexendo no emocional e na imaginação coletiva, ele provavelmente resistirá bem ao tempo, e poderá ser visto e revisto daqui a uma década ou duas, mantendo ainda todas suas virtudes intactas.

A história, simples em sua estrutura, complexa em suas sutilezas, conta a história do palhaço Pangaré (Selton Mello), filho do dono de um pequeno circo que vive dos pequenos espetáculos que apresenta viajando por cidades minúsculas, e sempre agraceando os prefeitos locais (que talvez, por falta de “pauta”, acabam sempre participando de uma sessão do circo).

Pangaré, ou Benjamin (ou Mello, o diretor do filme), está com problemas para manter seu dom de fazer as pessoas rirem: hoje chamaríamos de depressão (o filme é de época, apesar de não tão distante). Esse sentimento tão íntimo quanto sutil é o que permeia o primeiro ato da narrativa, que, apesar de conter, assim como todo o filme, poucos diálogos, transmite sua mensagem da melhor maneira possível: a visual. Através de uma fotografia pálida, do uso insistente da mesma tomada em que o comboio segue pela estrada, da ausência quase completa de trilha sonora, exceto as incidentais e as que tentam, inutilmente, arrancar graça do espectador (do filme, não do circo), o trajeto e a vida que segue o circo pode ser tudo, menos alegre.

A dinâmica entre os personagens é, como um todo, pitoresca e igualmente apática, e as gags que possuem o intuito de nos fazer rir nessa introdução da história, acaba também, bem sutilmente, torturando nossos sentidos pela tristeza paradoxal daquela trupe de artistas.

O mérito disso, além dos aspectos já citados, são uma interpretação cuidadosa nos detalhes de Selton Mello, que consegue transmitir seu estado de espírito melancólico sem soar caricato, o que, digamos, é um feito e tanto, considerando que o sujeito se veste de palhaço por boa parte do longa. Esse cuidado consegue ser percebido em seu tom de voz fraco, tímido, ou em sua postura estática, contemplativa e exausta. O olhar vago e lento, a distração cada vez maior. Enfim, apenas um espectador muito inerte conseguiria não perceber.

Alheio a isso, a história ainda conta com o suporte das agruras que a trupe vive, nunca ganhando o suficiente e sempre tendo que eventualmente molhar a mão de alguém – seja de um mecânico de beira de estrada ou um delegado corrupto – para conseguir se safar das situações em que acabam caindo. E até a situação interna, como um grupo, vive os apuros da desonestidade, apuros esses usados como contraparte ou reforço da situação do próprio palhaço, e a dificuldade que este tem em conseguir um sutiã para a colega (grande o suficiente para ela) e um ventilador para o calor delirante são o reflexo que precisávamos para entender que a visão daquela realidade passa pelo filtro triste de um palhaço melancólico, onde sua própria vestimenta de palhaço é vermelha, mas um vermelho pálido, empoeirado, mais triste que alegre.

Quando a situação se torna insustentável, tamanho é o estado melancólico que nos chocamos, mas não tanto como deveríamos. Apenas o necessário para que entendamos o significado do que se passa na tela. É digno de nota a escolha milimetricamente acertada do ritmo da edição a partir daí, pois ela nos fisga e consegue nos levar para onde quiser na transformação do segundo ato.

Claro, é aí que reside a força da agora presente trilha sonora, que é tão orgânica, reflete tão bem o estado de espírito da tela, ou reforça-o, que lembrou Três Homens em Conflito e o hino solene de Morricone, e a capacidade de levar o espectador onde quiser.

A conclusão, catártica pela própria natureza da história, consegue deslanchar todas as construções de roteiro criadas desde o início com calma e disciplina, a mesma competência vista durante todo o longa.

Ao final, o que resta é a lembrança e a satisfação de conseguir perceber as tantas sutilezas presentes na história. A graça de contar uma história visualmente sem depender de nenhuma muleta narrativa. A arte maior que a vida do próprio artista.

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