O Pântano

2019-06-17 · 2 · 397

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

É daqueles filmes intimistas que fala sobre a família em tempos bucólicos, sem maldade, com geladeira velha e matriarca que não para de beber. O que deu de errado com essa família de classe média baixa?

Nada. Supostamente era para ser assim mesmo. E a diretora Lucrecia Martel acompanha esse clima bucólico com total apatia, embora capture enquadramentos de cenas com certo charme e saudosismo. É um filme difícil para os que pretendem ficar acordados e ótimo para os que pretendem dormir. Há um sentimento meio Godariano de desdém por aquela vidinha burguesa sem graça. Afinal de contas, pobre que saber viver.

Também é desses filmes que passa em festivais pelo mundo e que um monte de gente rasga a seda como parte do protocolo pelo simples fato da película parecer um filme de verdade. “É arte”, dizem os defensores do “qualquer coisa é arte”. E tem uma fotografia que mistura chuva com cinza parecendo um autêntico quadro do passado que ainda não pegou pó porque não é tão velho assim.

Os elementos do filme soam biográficos, mas sem valores nem história. São meros fragmentos que você pode se identificar por compartilhar a mesma infância na mesma época, mas não precisa se culpar se não gostar: é arte moderna.

Há alguns detalhes ocultos do espectador médio que o filme parece embutir como discurso social ou algo do gênero, como a revolta dos maridos em deixar duas mulheres viajarem sozinhas para a Bolívia para comprar material escolar para as crianças. Essa é uma das inúmeras historietas que vão se desenvolvendo em paralelo, quase como um pano de fundo. O filme em si, o que se vê na frente, não existe. É o cenário. E o que se move pelo cenário são pessoas cujas histórias não se cruzam, mas suas personalidades se complementam como cores de um quadro.

Lucrecia Martel é boa em criar esse clima apático em seus filmes, embora o que esteja acontecendo na tela tenha potencial de ser interessante. Ela desenvolve como que en passant o drama da adolescente assediada em A Menina Santa e empalidece a História da Argentina como colônia espanhola em Zama através da figura blasé de um sub oficial do governo que é obrigado a viver no meio do nada e em meio a nativos. Para quem deseja ter um novo olhar sobre o anti-cinema, Martel é um nome a ser lembrado.

La Ciénaga (Argentina, France, Spain, Japan, 2001). Dirigido por Lucrecia Martel. Escrito por Lucrecia Martel. Com Mercedes Morán, Graciela Borges, Martín Adjemián, Leonora Balcarce, Silvia Baylé, Sofia Bertolotto. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·