O Poder e o Impossível

Esse é um filme que teria de tudo para não dar certo, ser clichezão, etc. Ele lembra 127 horas, mas enquanto James Franco não é um exemplo de empatia o ator Josh Hartnett atinge a glória ao nos preocuparmos com seu destino, mesmo que na neve ele seja um completo idiota.

E, sim, essa é a ideia que quiseram passar para caracterizar o jogador de hóquei Eric LeMarque. Ele é um idiota, comeria até neve se pudesse (ao contrário do que se poderia pensar, ela desidrata em vez de ajudar na sede). Ele está isolado em uma cabana na neve, faz snow boarding para se manter ativo, e é viciado em drogas em recuperação gradual. O mundo fica mais focado depois que ele ingere da substância, em uma ótima ideia para tornar isso visível para o espectador.

Falei que a história lembra 127 horas porque assim como o filme de Danny Boyle, o esportista aqui vem de uma história real e fica preso em uma situação de vida ou morte. Conforme o tempo passa surgem os flashbacks sobre sua infância dura com o pai abusivo e sua relação de amor e ódio com o hóquei. E também nesse sentido a história encaixa melhor, já que o nosso passado geralmente tem a ver com nosso presente. E no formato de filme isso evita longas exposições, o que tornaria o drama atual fraco demais.

E o ator Josh Hartnett se aproveita de todas as oportunidades em que ele sente dor. Sua perna está contundida porque ele é um idiota, tinha se trancado do lado de fora de sua cabana e arrombou a porta com os pés descalços. Isso em um frio de 10 graus negativos é um senhor incômodo, mas a menos trinta é a certeza de morte. Assim também o vê a gerenciadora de riscos e resgate Sarah (Sarah Dumont), que só descobre que há alguém sumido em sua região alguns dias depois. Mira Sorvino faz a mãe do rapaz, a única pessoa que o apoia. A única amiga.

O roteiro do estreante Madison Turner se aproveita do livro do próprio LeMarque e Davin Seay e conta uma história que vai apresentando os acontecimentos no gelo dia após dia que demonstra como quando praticamente tudo que pode dar errado dá errado ficamos entre a vida e a morte. Claro que a todo momento o longa frisa que de fato LeMarque é um completo ignorante sobre sobrevivência no gelo, e que graças à sua garra e sua vontade de viver ("não posso deixar que ela (a mãe) me veja assim") é que ele vai durando mais tempo do que deveria.

Mas se não fosse pelo diretor Scott Waugh este filme seria bem sessão da tarde. Graça a ele e sua escolha da mise en scene somos levados a crer em toda a desorientação do rapaz, em como o frio interfere em nosso julgamento, em como a fome nos faz tomar más decisões e em como aos poucos nossa humanidade vai sendo drenada pela mãe natureza e sua fúria irracional. Tudo em volta de LeMarque está contra ele, e ele não possui nada, exceto sua força de vontade, para continuar existindo.

Mas ele é drenado aos poucos, e Waugh sabe disso. Sua cara vai queimando aos poucos. Sua perna vai ficando vermelha aos poucos. Ela apodrece. Ele come um pedaço dela. O desespero do rapaz é crescente. Não explode de repente. E é em um determinado momento que o filme demonstra todo seu potencial dramático sendo aproveitado: LeMarque está deitado. O quadro é um plano-detalhe extremamente próximo do seu rosto cheio de gelo, queimaduras e sua pouca barba. Seu pelo no rosto forma uma "cena" pitoresta que lembra os pinheiros na neve. LeMarque se transformou na neve. Ele está completamente tomado. É um momento solitário, silencioso e dramático não porque a música insiste, mas porque a situação simplesmente não poderia ser diferente.

O Poder e o Impossível é um filme forte e tenso. Não é uma história com um final feliz tão fácil assim. É um ritual de passagem. Talvez para um amadurecimento. Isso não fica totalmente claro. Mas é menos de sobrevivência e mais de compreensão do que é a vida. Se para isso LeMarque teve que ressuscitar, é algo que se deixa para a interpretação do espectador.

Wanderley Caloni, escrito para Cinemaqui, 2017-12-09 00:00:00 +0000

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