O Que Eu Fiz Para Merecer Isso?

Um clássico dos anos 80 de Pedro Almodóvar mistura o humanismo de Elia Kazan, sua paixão pelo cinema, pela sensualidade e, principalmente, pelo adorável trash que o tornou conhecido no mundo todo.

A história é básica, porém cheio de nuances. Há algumas pérolas nas falas, sobretudo ditas pela personagem de Chus Lampreave, que atua como se vivesse. Você coloca ela na frente das câmeras e recebe um realismo tão absurdo de avós pelo mundo latino que vira uma atração à parte.

Carmen Maura segura o protagonismo até o fim. É um de seus melhores papéis no cinema. Seu sorriso muda que é um assombro entre trepar com um dos rapazes musculosos que encontra no vestiário do serviço e com uma maquiagem forçada preparando janta para seu insatisfeito marido. A pobreza é enfocada de frente nessa família tradicional, e quem viveu os anos 80 vai ter dificuldades em dar risada disso, pois é muito real e presente nas memórias da infância.

A miscelânea de personagens, incluindo um dentista pedófilo que adota o caçula da família, só rivaliza com a mistura de estilos que o diretor arrisca. Ele não tem medo de soar ridículo e no processo soa tão autêntico e vivo que se torna impossível não se apaixonar pelo cinéfilo enrustido em um corpo de cineasta. Isso que é cinema destemido.

Wanderley Caloni, 2021-09-11 21:47:09 -0300

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