O Que Eu Fiz Para Merecer Isso?

Um homem quer ouvir um disco que para ele tem muito valor. Suas tentativas frustradas vão escalando em uma história cada vez mais absurda. Essa é a premissa básica de O Que Eu Fiz Para Merecer Isso?, que realiza uma farsa -- aquela comédia em que todos os personagens são críveis, mas exagerados -- em praticamente um cenário.

Encurralando seu protagonista em uma bola de neve de problemas, o roteiro da diretora Patrice Leconte começa simplório cativando o espectador no começo, quando, ao achar uma peça de valor, um disco de jazz, o impulsivo Michel (Christian Clavier) não se segura com o vendedor. Esse início equilibra um homem comum entusiasmado como uma criança. Aos poucos, contudo, apresentando seus personagens sob o clima de tensão de Michel tentando ouvir seu disco, vamos percebendo que sua vida está pavimentada de mentiras e situações que ele não consegue controlar. Suas tentativas de evitar que isso atrapalhe o seu único prazer autêntico naquela tarde é a força motriz para a comédia, que funciona tão bem que não percebemos que estamos acompanhando de fato um drama. Tudo bem que é um drama que utiliza a comédia para torná-lo mais leve, mas ainda assim, um drama.

E é a capacidade de Christian Clavier em depositar naquele disco todas as esperanças, e pela nossa identificação, como espectadores e seres humanos urbanoides (que já sabe que às vezes conseguir uma hora durante o dia de tranquilidade é tarefa ingrata), que o drama se configura. Ele, assim como nós, descobriu que a vida acumulou tantos detalhes, tantos compromissos e tantas pessoas em sua volta, que já é impossível estar em paz; quem dirá sozinho.

Obviamente que todos os personagens são estranhamente exagerados, mas a licença poética da comédia permite isso, e por isso funciona tão bem. As mulheres melindrosas, o filho que saiu o inverso do pai, o funcionário estrangeiro relapso, a empregada que sabe demais, o vizinho tagarela... todos já fazem parte de uma coletânea de estereótipos reutilizados por décadas no cinema e no teatro. "O Trair e Coçar..." se baseia em tudo isso, e mais uma tonelada de comédias de situação. (Não à toa, o filme foi baseado em uma peça de Florian Zeller.)

Porém, o que o filme parece fazer é ignorar toda essa loucura e aproveitar apenas sua estrutura, tão conhecida, para atualizá-la com questões do momento, envolvendo o espectador nessa maluquice temporária para discutir a existência dessa mesma maluquice em nossas próprias vidas, em menor ou -- sim, é possível -- maior grau. Quantas vezes não acusamos alguém de egoísmo só porque essa pessoa não está... atendendo nossos desejos egoístas?

Por essa introspecção divertida e aparentemente inconsequente, "O Que Eu Fiz..." merece todos os créditos por utilizar os clichês ao seu favor, nunca dando mais espaço para eles do que eles merecem. O resultado é o melhor que se pode extrair de uma comédia: a que nos convida a rir das bizarrices do mundo moderno, onde nós não estamos livres: somos tanto vítimas quanto testemunhas.

Wanderley Caloni, escrito para Cinemaqui, 2016-04-15 00:00:00 +0000

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