O Renascimento do Parto 2

O Renascimento do Parto 2, talvez não seja preciso dizer, é mais do mesmo cinco anos após seu predecessor, O Renascimento do Parto. E desconfio que o objetivo aqui é a conscientização eterna e perene da população, em um trabalho de formiguinha que com certeza deve desanimar às vezes as pessoas por trás desse movimento, mas não chega nem perto do desânimo que isso gera aos fãs de Cinema.

Iniciando dessa vez apresentando os diversos entrevistados e suas funções, que são em sua maioria sumidades fictícias -- advogados, psicólogos, enfermeiros e, o mais icônico, cientistas (como se ter PhD em alguma área te desse poderes mágicos em todas) -- o pretenso documentário logo deixa claro que, apesar de defender a ciência e o método científico em busca de uma melhor solução para os problemas do parto da mulher contemporânea, este longa (bem longo, diga-se de passagem) não irá apresentar quase nenhuma informação estatística relevante das pesquisas que cita (sequer quais são essas pesquisas), preferindo no lugar explicar muitas opiniões disfarçadas de conhecimento, em um serviço de desinformação que além de não auxiliar em sua causa afasta qualquer possível ajuda e reconhecimento dos que também confiam na ciência, em um efeito muito semelhante ao pseudo-documentário Quem Somos Nós, onde sumidades de astronomia e física teórica discutiam a multiplicidade das realidades e como com a mente positiva alteramos nossa própria realidade (e obviamente nesse caso não havia sequer qualquer trabalho científico válido e digno de ser citado, sendo que muitos dos entrevistados, descobriu-se depois, eram meros charlatões).

Utilizando vídeos-denúncia em seu início, em cenas fortes e revoltantes, onde médicos realizam procedimentos de caráter duvidoso e cujos nomes são muito citados, mas nunca explicados (o mais revoltante é um que empurra o bebê de dentro da barriga da mãe para fora, quase subindo em cima da mulher) O Renascimento do Parto 2 já começa, assim como seu antecessor, delineando seu apelo para as emoções regado a testemunhos emocionados e jogando conclusões que defendem o único lado defendido no longa: precisamos humanizar o processo de parto a qualquer custo, e doa a quem doer.

E não que eu seja contra essa ideia. Aliás, acho muito difícil alguém ser contra. Esse movimento é como aqueles slogans de "todos contra o câncer" (como se existisse alguém a favor). Portanto, longe de atacar a ideia desses dois filmes, embora seu conteúdo e forma mereçam todos os ataques cabíveis, muito embora isso soe desnecessário, já que o próprio filme parece se sabotar com discursos infantis, inflamados e com uma mescla entre cenas-denúncia (maus tratos à mãe e ao bebê durante o parto) e "cenas-esperança" (partos humanizados, em casa ou com profissionais que lidam com o psicológico da mãe). Não se trata de buscar a "verdade", mas de esfregá-la na cara do espectador, apontar a solução final. O filme já começa concluindo e o resto é só uma sequência de imagens para florear.

Isso quer dizer que, falando da sua narrativa, o filme não tem nenhuma. O diretor Eduardo Chauvet tenta usar um fiapo de história envolvendo uma mãe tentando filmar uma entrevista no hospital onde fez sua cirurgia de cesárea, e foi muito mal atendida, e os problemas em tentar agendar um horário com o diretor do hospital (algo meio óbvio para qualquer ser humano sensato), mas a história é apenas recortada para dar a sensação de um longo processo. No caminho para o hospital ela conversa com o motorista, aparentemente de um serviço de transporte privado. E essa parece ser a pessoa mais sensata do filme todo (porque não está inserido nele). Mesmo tentando forçar uma situação imediatista, o longa é incapaz de gerar qualquer tensão ou conflito; apenas cenas que se misturam em um mosaico que não significa nada mais que um apanhado de power point em forma de videos caseiros e que não parecem ter nada a acrescentar, apenas a reforçar.

Esse tipo de "efeito dramático" geralmente acontece quando os ditos movimentos sociais se juntam, e embora muitos desses movimentos se dizem contra a bipolaridade das ideologias, logo o discurso de "nós contra eles" é revelado, onde ocorre que se alguém está certo então está "do nosso lado", enquanto quem está errado está "do outro lado", o que obviamente enfraquece a discussão do tema, o torna parcial demais para nos identificarmos com qualquer um dos lados. Dessa forma, se no primeiro filme a questão antes era mais de conscientizar todos os envolvidos, incluindo os próprios desavisados médicos, agora a sensação geral é de retaliação, revolta. E protesto.

E por falar na palavra "protesto", se no primeiro filme já se esboçava timidamente a cartilha básica tirada do "Dicionário da Justiça Social", como o famigerado "empoderamento da mulher" (e que sempre me faz lembrar da She-ha, a companheira do He-Man), o bingo de expressões sociais agora está completo, com as palavras já batidas que já conhecemos, tiradas do vocabulário de termos vagos para debates pré-montados, como "desconstrução", "protagonismo", "historicamente (insira qualquer bobagem)", "feminismo", e, o ultimamente mais na moda, "microagressão" (aqui chamada de "violência perfeita").

E por falar em protagonismo, neste filme não há uma protagonista. No máximo um ícone: uma mulher, negra, sem pernas, cadeirante, que se veste para um ensaio fotográfico como um ícone feminista das antigas. Isso não é apenas viver no passado, mas tentar repeti-lo. E O Renascimento do Parto 2 tenta repetir sem tirar ou colocar uma vírgula a mesmice do seu antecessor.

Wanderley Caloni, escrito para Cinemaqui, 2018-05-10 00:00:00 +0000

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