O Último Beijo

Wanderley Caloni, 2021-03-27

Um dos últimos grandes, do único dos anos 2000, este drama, comédia e romance italiano trabalha os relacionamentos entre diferentes casais e indivíduos como Hollywood jamais ousaria. Ele é honesto, sincero, realista e por isso mesmo conquista nossos corações e mentes. Simplesmente por falar a verdade. Não há contos de fadas da Disney. Não há histórias sobre injustiça social e feminismo. Nada dessas fábulas modernas do novo milênio constam neste filme que reúne em histórias contemporâneas as vicissitudes que o ser humano passou para manter a estrutura familiar intacta, ou viver de acordo com o que é certo, acima de tudo e de todos. A lei do universo, e do porquê as coisas são como são. Um tapa bem dado nos pós-modernistas e relativistas.

São vários centros de uma única história, mas gira em torno de ter filhos, formar casais, fidelidade e casamento. Também envolve encontrar o eu dentro de nós que com sorte nos dará as respostas que perseguimos mesmo sem saber. Qual a resposta correta para cada um desses desafios da sociedade desde sempre? Não é algo racional e o filme vem nos mostrar como o processo intuitivo é o mais poderoso. Pois vem de antes de sermos gente. A humanidade fez uma tradição po milhares de anos. Seria burrice achar que existe um caminho fácil para tudo isso.

E o filme escrito e dirigido por Gabriele Muccino não evita nada e bate de frente com essas questões que nos faz deixar a mente em parafuso, pensando a todo momento. Não necessariamente defendendo este ou aquele lado. Importa menos se o marido deveria nunca abandonar a esposa com um filho de seis meses, e mais sobre o que faz com que essa situação ocorra na vida de muitos.

O elenco dá um baile, principalmente por causa de uma direção coesa que une diferentes histórias sobre o mesmo arco dramático das relações, mas em particular sempre que contracenam os veteranos Stefania Sandrelli e Luigi Diberti como o casal mais vivido nós sentimos algo mágico sendo construído em tela. São momentos para reviver. São eternos pela naturalidade com que conduzem uma crise. E nem a crise deles é algo fácil de antever onde vai dar.

Não há respostas fáceis no dramalhão que se forma em O Último Beijo e isso é ótimo. Estamos cheios de filmes com respostas fáceis, terceiros atos bem pavimentados e final manjado. Nenhum filme com uma conclusão satisfatória é digno de nota a longo prazo. São meras distrações para pessoas entediadas. Assista um filme difícil como esse, que faz você repensar sua própria vida em meio ao turbilhão de emoções, onde no final você continua sem resposta, e terá visto algo que pode ser revisto sempre que quiser.

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