Paris, Te Amo

2019-03-22 · 3 · 527

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Este é um mega-projeto de cinema, com dezenas de diretores e roteiristas. Não há apenas o trabalho de compor os curtas, mas de juntá-los. Este é um filme com tantas visões diferentes que ele soa um pouco esquizofrênico. Mas como são todas visões mais ou menos alinhadas com o que a classe artista defende – o que geralmente quer dizer a mesma coisa – ele sobrevive ao pluralismo por causa da mesmice impregnada na mente de seus idealizadores.

E exatamente por conta dessa mesmice o projeto é sabotado. A ideia é mostrar diferentes visões do amor por Paris, essa cidade cosmopolita em que metade dos curtas falam inglês e a outra metade francês. Temos um cego, um não-falante, uma árabe, casais de idades diferentes, casais separados, casais brigando e casais se formando. A atitude com que o filme impõe Paris como o local onde todos esses eventos devem ocorrer é limitadora. É como se apenas em uma cidade como Paris tudo isso pudesse acontecer. Ao mesmo tempo, se considerarmos toda cidade grande como incubadora desses relacionamentos o filme está certo, pois relacionamentos em cidades pequenas nunca ganham tamanha diversificação cultural e histórica que vemos no filme.

Mas estou pintando a experiência de outra cor. Estamos falando de grandes nomes na direção mundial escrevendo pequenos ensaios sobre situações fictícias que dão apenas uma pincelada nesse enorme quadro. O filme já começa mostrando esse mosaico em pequenos retângulos onde se passa a ação, e vamos no decorrer da história preenchendo esses retângulos com os rápidos momentos que cada cineast dedica ao projeto. Algumas histórias são muito boas, a maioria é medíocre e esquecível. Você com certeza terá sua favorita, ou favoritas.

O importante aqui é perceber como diferentes estilos se unem em uma reunião improvável. Essa experiência por si só é mais interessante do que o tema Paris. Temos Irmãos Coen em um lado, Assayas de outro e Cuarón de outro. Uma mistura totalmente nova se forma na tela e isso nos faz pensar na imensidão de vozes cinematográficas que há no mundo atualmente. É uma sensação de mostra cultural, de festival de cinema. Mas um festival só frequentado por gente de primeira.

Então por que este não é um filme fora do comum? Bom, não se consegue isso com pinceladas tão breves. Como um filme único ele nunca funciona, pois vai pulando de história em história e mostrando personagens que não se conectam nem tematicamente nem narrativamente. A única conexão é que estamos em Paris. Esse é o laço. Sequer podemos chamar de romance, pois há quadros, como o de Walter Salles, que diz mais sobre amor e sociedade moderna. Já em Gus Van Sant temos algo mais experimental. Wes Craven nos entrega algo mais rotineiro e eficiente. Como conciliar tudo isso em torno de um longa-metragem?

Não há solução. É um filme bom de se ver, de vez em quando. Mas ele não trará nenhum traço de unidade. É como se estivesse colocando para tocar o DVD de curtas da Disney. E até isso ainda teria uma unidade: são curtas idealizados pela mesma equipe. Aqui a mistura é forte demais para fazer sentido. Curta com seu(sua) companheiro(a).

Paris, je t'aime (France, Liechtenstein, Switzerland, Germany, United States, 2006). Dirigido por Olivier Assayas, Frédéric Auburtin, Emmanuel Benbihy, Gurinder Chadha, Sylvain Chomet, Ethan Coen. Escrito por Tristan Carné, Emmanuel Benbihy, Bruno Podalydès. Com Fanny Ardant, Julie Bataille, Leïla Bekhti, Melchior Derouet, Juliette Binoche, Seydou Boro. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·