Pingue-Pongue da Mongólia

2019-08-17 · 3 · 604

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Não me lembro se já havia assistido a esse filme. São tantos trabalhos semelhantes que se passam em regiões distantes do planeta e que costumam passar na Rua Augusta, em São Paulo, e eu assistia tantos com minha esposa naquela região que, sinceramente, se eu já passei por esse filme, tive as mesmas sensações que tive hoje: um frescor de vida.

Esse frescor vem daquela sensação de jovem de estar ainda descobrindo o mundo, de quando qualquer coisa que surge fora da nossa pequena e limitada zona de conforto se torna algo grandioso e mágico.

Grandioso e mágico no filme se torna uma bola de pingue-pongue, trazida pelo rio até do lado da casa de uma família de nômades mongóis, uma criança a guarda como um amuleto, como uma “pérola dourada” que só brilha “de verdade” quando iluminada por uma lanterna, um dos vários apetrechos ocidentais obtidos pela família na base de troca com os comerciantes de passagem, como um conjunto completo de um “chá americano chamado de café”.

O filme de Hao Ning navega por essas percepções de encontro entre dois mundos. O comerciante traz uma revista americana e é chamada de “livro estranho”. Nele está a foto de uma planície muito semelhante onde moram escrito “a vida perfeita”. O chefe de família quer construir o moinho redondo que também está na foto, pois se trata de uma planície de algum país nórdico. A dificuldade em transpor um estilo de vida de outra parte do planeta para as tradições mongóis é o que torna esta história uma comédia.

Mas Hao Ning se perde facilmente em sua fascinação pelo mundo infantil de descobertas, perdendo muito tempo em mostrar a briga de diferentes “gangues” de crianças, que se dividem por idade, além das brincadeiras sem brinquedo, mas com binóculos e motocicleta, que elas inventam no seu dia-a-dia.

O resultado acaba se tornando um misto entre lúdico e quase uma análise humana das diferenças culturais. É engraçado acompanhar as percepções das crianças e de sua busca por compreender o que de fato aquela bola de pingue-pongue é. A membro mais antiga da família, a avó, diz ser um tesouro deixado pelos espíritos no rio, mas isso não convence mais essa geração, que recebe conhecimento novo de outras partes do mundo.

Este é um filme da diferença entre um mundo isolado no antigo império de Genghis Khan, que proliferou seus genes por aquelas bandas, e a comunicação com o mundo contemporâneo de hoje. Diz-se que o guerreiro possui até 16 milhões de descendentes homens hoje. Isso não adiantou hoje, pois a Mongólia é no máximo uma colônia da China, que é a nação para qual os filhos de Khan se viram no nascer do sol. Sobre o que é, então, esta história?

Há momentos belíssimos do horizonte daquela região do globo e um quase-documentário com aquelas crianças, que muito provavelmente não são atores de verdade. Entre comédia e documentário, eu diria que este é um filme misto, que nos apresenta uma das mais belas canções que você irá ouvir em um filme do gênero, no começo e no final. No meio, o silêncio das pradarias do entre Rússia e China.

Não me lembro se já vi esse filme, mas me lembro de muitos momentos dele, especialmente a última cena. Isso seria porque essas memórias vivem em nosso inconsciente coletivo ou porque esses filmes da Augusta, assim como os filmes de Hollywood, todos se parecem? Não me arrisco a dizer aqui. Apenas digo que este é um trabalho simpático, que entretém, e que facilmente se esquece.

Menos aquela música. Se você ouvi-la de novo com certeza se lembrará.

Mongolian Ping Pong (China, 2005). Dirigido por Hao Ning. Escrito por Hao Ning. Com Hurichabilike, Dawa, Geliban, Badema, Yidexinnaribu, Jinlaowu. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·