Polícia, Adjetivo

Wanderley Caloni, 2021-03-07

Cinema romeno nunca me desaponta. Nesse acompanhamos a rotina de um investigador de polícia vigiando três jovens que fumam maconha. No país ainda é crime consumir. O policial não quer fazer o flagrante para não ficar com a prisão de um jovem na sua consciência e porque "a lei logo vai mudar, na Europa inteira já não é assim". Sua rotina é monótona de propósito. O filme pede para observarmos seu ritmo de trabalho. É impecável. Quanto menos a história nos conta, focada apenas no ponto de vista do policial, mais ela nos dá a liberdade de refletir sobre o sistema.

No final há um embate dialético de levantar e aplaudir. É tenso e ao usar esse adjetivo me faz ter vergonha de adorar este filme que a grande maioria dos espectadores deve achar um porre. Não consigo evitar. É demais para meu intelecto cansado de ser bombardeado de clichês no cinema medíocre e esquemão de todos os dias. Isso aqui é novo: faz pensar. Não te dá opiniões prontas. Você pode assistir com opinião formada, mas se ver até o final vai te balançar pelo menos um pouco. Se pensar a respeito, claro.

Dragos Bucur entrega uma performance auto-centrada na figura de uma função burocrática que representa a lei e que age como um autômato em busca de respostas que lhe impeçam de fazer o que a lei determina. Seu olhar cabisbaixo e introspectivo revela mais quando ele interage no escritório com seus colegas. Os diálogos com sua esposa revelam um nível intelectual inesperado e fútil.

O universo onde se passa essa história é surreal e ao mesmo tempo não dá para ser mais realista que isso. É inconcebível que este filme tenha sido produzido e chegado aos cinemas, mesmo que seja fisgado por organizadores de festivais por uma suposta mensagem social.

Mas fico grato que outras pessoas tenham enxergado o mesmo que eu: ele é fascinante ao percorrer um caminho anti-climático e correto do começo ao fim. São quase duas horas em que quase nada acontece. Mas é um nada delicioso de acompanhar. Somos transportados para a rotina insuportável de outra pessoa. E obrigado por esses momentos.

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