Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas

Este é um rascunho e está sujeito a mudanças.

Este é um filme que não entende muito bem seu papel no mundo. Ele quer afirmar que não há nada de errado em um pai e duas mães constituírem família, mas toda essa compreensão sobre formas diferentes de amar não serve para compreender que o resto do mundo não é mal, mas apenas vive em sua própria época, seguindo seus próprios valores.

Essa afirmação que o incomum pode ser normal sabota a estrutura de "Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas", que já no título centopeico denuncia seu tom novelesco, pronto pra TV. Começa no julgamento de um comitê de ética e segue com flashbacks por completo, quase sem ligação com o tempo atual. É preguiçoso em seu máximo. Não entendendo a mina de ouro que é a história que ela está sentada, a diretora e roteirista Angela Robinson adota uma postura tão blasê ao narrar os acontecimentos reais em torno do criador da Mulher-Maravilha que a única coisa que chama a atenção são os acontecimentos, e que chamariam a mesma atenção em um verbete da Wikipedia (e gastaria bem menos tempo do espectador).

Não é possível também, em pleno século 21, que seja escalada uma diretora mulher para conduzir um material cujo protagonista é um mero representante do patriarcado acadêmico, além de um homem de sorte. Ele é um professor doutor em psicologia e trabalha com sua linda esposa e se relaciona com sua estonteante secretária. Ao mesmo tempo. Sua desculpa é validar uma teoria sobre papéis de dominação e submissão que permeiam o imaginário popular hoje em dia com enlatados repulsivos como a série 50 Tons de Cinza.

Ele também é o inventor do detector de mentiras, que gera uma cena absurda e obtusa em que a inquisidora mulher do professor deduz um detalhe técnico que não tem a menor relação com ética apenas para uma personagem feminina poder afirmar que outra personagem (feminina) foi responsável pelo principal detalhe de sua invenção, e não um homem, como se imagina. Porém, quando observamos outra cena em que a secretária da seu pitaco, ele soa tão irreal frente a dois doutores que a impressão é que uma secretaria está diante de dois doutores incapazes de constatar o óbvio de sua própria pesquisa.

Por outro lado, o lado pessoal, "Prof. Marston" caminha gradualmente em torno de sua mensagem de amor livre, mas as emoções sentidas pelo trio soa falsa desde o início, ou no mínimo formulaico. É óbvio que eles estão destinados desde a primeira cena a se tornar um ménage, mas metade do filme é gasto para desenvolver o óbvio, e acaba soando bombástico quando no fundo é auto-evidente. O único freio na inevitabilidade do amor a três seria a sociedade e os valores de cada um, mas esses valores nunca são expostos o suficiente para serem postos à prova, desafiados, e assim quebrados. Nunca sabemos realmente quem são essas pessoas, e por isso nos conectamos mais à sua história genérica do que às suas personalidades.

Unindo História e vida pessoal o filme ainda tenta estabelecer o necessário elo entre a polêmica heroína fetichista iniciada pelo Professor como forma de divulgar suas ideias não-ortodoxas pela via popular, e para isso utiliza os mesmos personagens em papéis funcionais e nunca orgânicos. É daí que surge o avião invisível a partir de um aviãozinho de plástico, ou o chicote entre os primeiros aficionados de BDSM antes mesmo de ter esse nome. Tudo soa muito artificial e conveniente, pois falta espírito na aventura.

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