Queimando ao Vento

Wanderley Caloni, 2019-08-02

Há algo de literário em trabalhos de adaptação de livros, como este, dirigido por Silvio Soldini e escrito com Doriana Leondeff, que se baseia no romance de Agota Kristof. É essa mania do protagonista ser o narrador e estar escrevendo um livro, mesmo que ele seja um maníaco desde criança e viva recluso fugido de seu país de origem.

Esse país é a Tchecoslováquia, e o país para onde ele vai tem uma fábrica que atrai mais conterrâneos de sua terra, incluindo seu amor de infância, a razão de sua existência em todos esses anos. Há algo de intensamente poético na construção de Tobias, que o ator Ivan Franek e seus olhos esbugalhados conseguem demonstrar de maneira penetrante e um tanto relapso.

Antigos possíveis amantes que se reencontram em um país estrangeiro é tema de tantos filmes, e Queimando ao Vento é um deles com algumas peculiaridades que o tornam minimamente interessante. Temos a questão do incesto, do assassinato quando criança, da compulsão de Tobias em transar com as mulheres com quem encontra se relacionando com o passado com sua mãe prostituta.

Soldini entrega neste filme um trabalho sólido, onde pela repetição da rotina é onde acompanhamos as mudanças da vida do herói, além de ouvirmos seus pensamentos em formato de uma narração que sabemos no fundo ser o autor do livro original. A produção também é ótima, com fotografia, figurinos e música dramática em compasso com uma tragédia anunciada.

Infelizmente toda a tensão construída em dois terços do filme não contém uma contraparte à altura, e a história acaba soando excessivamente dramática. Mas é um excepcional trabalho de atuações e direção, o que meio que compensa entendermos que todo nosso investimento nessas pessoas não precisa se pagar com mortes ou escândalos. Afinal, já era uma história triste quando começou.

draft movies discuss