Revelações Secretas de Uma Mulher

2020-07-11

Filme de baixo orçamento sobre a ex do seu diretor, Miyuki, uma feminista bissexual radical que tem tantos filhos que fica difícil contar o número dos pais. Kazuo Hara, o diretor, nasceu em 1945, um péssimo momento para estar vivo no Japão. Segundo longa seu e já habituado a polemizar em seus conteúdos.

É um trabalho no mínimo interessante. Cumpre seu tom documental, embora seja hilário que o diretor se surpreenda com a briga constante entre a ex e sua namorada quando ele passa a viver sob o mesmo teto, filmando a briga. Dessa forma, o filme acaba explicando indiretamente a diferença entre homens e mulheres e um pouco da natureza humana.

A princípio o filme parece não ter sido uma boa ideia. Acompanhamos a rotina da mulher na ilha de Okinawa, o bairro Heliópolis do Japão. Ela se mudou para lá para conhecer o lado miserável dos japoneses em sua colônia mais controversa, geralmente um porto de marinheiros estrangeiros e base de nascimento de várias crianças mestiças com as trabalhadoras dos bordéis locais. Tanto as mulheres quanto as crianças vagam pela ilha. E Miyuki é tudo aquilo que seu diretor quer que ela seja. Sua narrativa é que comanda. Ela não confia nele por ele ser bom com as palavras, mas é vaidosa o suficiente para não descartar um filme em que ela é a protagonista máxima.

O filme finalmente emplaca quando nasce mais um filho dela na casa do diretor. Ele coloca a câmera de frente para sua vagina durante o parto, mas a providência divina e a tensão que ele sentia faz a câmera ficar fora de foco todo o tempo. São momentos que ficaram mais tensos por conta disso e por ela ter uma filha totalmente sozinha. Ao final do parto a criança fica lá jogada no chão, mas a mãe começa a dizer que está tudo bem e é natural. Não conseguimos entender o desdém dessa criatura, ou o que a move, se é que há algo.

Filmado com áudio independente, há vários momentos fora de sincronia, mas que soa até poético, quase como descrições fora da ação. Em dado momento o diretor trabalha com sua namorada e vemos como a ex é ciumenta e possessiva. Ambas engravidam nessa época e são bem diferentes entre elas.

A conclusão que você irá chegar deste trabalho é que ele é bem pessoal, quase a ponto de não conseguirmos universalizar para tirarmos ideias sobre nós mesmos. Mas é isso o que o torna um filme que chama atenção: aprendemos também observando o outro, e quando o outro viveu em uma década em que não éramos nascidos em um país que nunca conhecemos com pessoas à margem da sociedade. Então ele se torna algo a mais do que nossas vidinhas pequeno-burguesas.

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