Rock em Cabul

2018-11-17 · 3 · 453

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

É curioso o resultado dessa comédia roteirizada por Mitch Glazer, que já está acostumado em elencar a persona de Bill Murray (“Os Fantasmas Contra Atacam”, “A Very Murray Christmas”), e dirigido por Barry Levinson, que já está acostumado a dirigir Murray e outros famosos, além de ter uma cinegrafia conturbada, que vai de “Rain Main” e “O Enigma da Pirâmide” para “Esfera” e “A Revolta dos Brinquedos”. Levinson não está acostumado a dirigir filmes ruins como esse, mas é Glazer que o entrega um material confuso, que se perde em suas premissas antes mesmo do segundo ato, e vai atravessando a vergonha alheia até não poder mais.

A história se ancora em um fato verídico: a primeira mulher a cantar em um programa de TV no Afeganistão. Todo o resto é mentira. Assim como a história do produtor musical Richie Lanz (Murray), que constantemente usa nomes famosos como Madonna para se auto-promover. Murray já foi melhor definido por Rober Ebert em sua crítica de Flores Partidas: é um ator fascinante quando não faz nada. Isso é verdade tanto no filme de Jim Jarmush quanto em Os Caça-Fantasmas e “O Feitiço do Tempo”, e é exatamente por ele fazer alguma coisa é quando o filme deixa de ser interessante.

Por isso e porque Zooey Deschanel começa estrelando o filme e some para sempre do plot nos primeiros quinze minutos. O mesmo tempo da ponta de Bruce Willis, que sem falar nada consegue ser hilário. A pior e a melhor ponta definem os extremos dessa empreitada.

Então Murray encontra uma prostituta que pretende se aposentar interpretada pela voluptuosa Kate Hudson e Glazer e Levinson pretendem construir uma crítica divertida à chuva de dinheiro que ocorre quando os EUA resolvem patrocinar uma guerra. A combinação inicial já estava ótima por reunir o nivel ótimo de sarcasmo de Murray e da realidade que o cerca. E começa a desandar justamente quando a bondade humana começa a tomar forma em sua tentativa de ajudar a tal cantora afegã, interpretada por Leem Lubany.

A partir daí todo o plot se rende ao maniqueísmo barato, e os personagens que já estavam desenvolvidos são usados em ações que não imaginamos eles fazendo de livre e espontânea vontade. Tudo começa a soar falso e forçado, e a compulsão de deixar de assistir ao filme é maior do que a vontade de ver onde ele vai terminar. Porque no fundo nos desinteressamos por aquelas pessoas. Elas fugiram do controle de nossas crenças e não são mais viáveis no universo do filme. A bondade pela bondade cai por terra em um deserto de violência e ambição humanas. E tudo isso porque é impossível imaginar Bill Murray bancando o bonzinho sem querer algo em troca.

Rock the Kasbah (United States, 2015). Dirigido por Barry Levinson. Escrito por Mitch Glazer. Com Bill Murray, Bruce Willis, Kate Hudson, Zooey Deschanel, Leem Lubany, Arian Moayed. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·