Romance à Francesa

Romance à Francesa é como se alguém pegasse um roteiro de Woody Allen (dos últimos anos, pelo menos), extraísse todo o pessimismo e trocasse por romantismo. Isso em uma época que, assim como A Comunidade, lutamos por entender, conviver e experimentar formas de amor que fujam do convencional.

A comparação com o estilo do diretor/roteirista/comediante nova-iorquino se justifica pela doçura com que os diferentes aspectos dos relacionamentos dos personagens são abordados, mas mais do que isso, quando vemos o tanto de coincidências e situações forçadas necessárias para que o filme consiga chegar nos temas que pretende abordar. Enquanto engraçado pelo absurdo, ele vai aos poucos criando um renovado estilo de comédia romântica que é charmoso, inteligente, puro e sem malícias gratuitas.

A história já começa absurda quando Clément (Emmanuel Mouret), um professor de crianças comum e distraído, se encontra pela terceira vez com uma moça, Caprice (Anaïs Demoustier), em uma peça de teatro. Clément, no entanto, não se interessa por muito mais do que leitura e Alicia Bardery. Portanto, quando vemos a atriz procurando um professor para seu filho na escola onde Clément leciona, o circo de coincidências está montado.

Com uma fotografia teatral (cores, luzes, sonhos) e exuberante (para não dizer delirante), os cenários estáticos vistos pela diagonal do diretor Emmanuel Mouret caem como uma luva em uma narrativa que se esforça para observar aquelas pessoas e refletir sobre cada nova situação que aparece, sempre de maneira bem-humorada, mas com um fundinho de reflexão. Dessa forma, vemos uma mise en scene toda rebuscada sem soar apelativa. Pessoas andando na frente da câmera soam charmosas criando cenas memoráveis, pois os diálogos são inspirados, sempre regados com jazz ou música de situação.

Aliás, é necessário abrir um parênteses para a trilha sonora que foi escrita a dedo para cada situação. Conseguindo evocar ao mesmo tempo a atmosfera "familiar" de Domicílio Conjugal (Truffaut, 1970) e a arritmia perplexa de Masculino-Feminino (Godard, 1966), as composições conseguem oscilar sutilmente entre o romântico, o suspense e o drama.

Para os muitos que se esquecem que ficção é lidar com o inusitado para construir conteúdo, é importante lembrar que a "forçação de barra" do roteiro deve ser relevada pelo bem do argumento. Quase tudo que surpreende é por um motivo maior, e não para soar inteligente. É assim com Romance à Francesa, e é assim nos melhores momentos de Woody Allen (com ou sem pessimismo).

Wanderley Caloni, escrito para Cinemaqui, 2016-09-29 00:00:00 +0000

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