Round 6 (Squid Game)

Esta é uma distopia contemporânea interessante, porque usa ideias mesmo que velhas passadas com mais organização e propriedade. As mortes violentas dão o tom e faz pensar mais no sistema do que nas mortes. As mortes não importam quando ocorrem em massa. É o sistema, a alegoria controlada do capitalismo, o forte da série.

Ela começa muito bem. De forma visceral já explica as regras do jogo desse povo endividado que foi convidado a participar e concorrer a um prêmio milionário. Eles foram voluntariamente sequestrados e assinaram um termo onde a palavra "eliminado" tem significado literal.

O primeiro episódio demora a começar para apresentar o herói e a situação lamentável que ele se encontra, endividado com a mãe doente, divorciado que vai se distanciar da filha, viciado em jogos. Um ser humano fraco. Mais fraco que eu e você, para não nos imaginarmos naquela situação de desespero em entrar em um Jogos Mortais versão Show do Milhão com alguns poucos toques lúdicos.

A produção é muito bem feita e capricha na estética. A trilha sonora impecável dá o tom daquela realidade exagerada e sistêmica do microcosmos onde matar não apenas é possível sem punição, mas é uma das regras do jogo. A ideia por trás é uma versão da vida real exagerada, um simulacro da natureza onde os mais fortes, sortudos e implacáveis deixam os mais fracos, azarados e bondosos para morrer. Quem poderá salvá-los senão o roteiro bonzinho?

Porém, este não é um roteiro que anda por caminhos tão fáceis. Em sua eloquência vai deixando pistas para o espectador mais atento refletir. No primeiro episódio, por exemplo, você terá todas as pistas que precisa para recolher as recompensas pelo resto da temporada, começando pelo jogo infantil inicial, que apresenta uma amizade do passado, ou a corrida de cavalos, e a última esperança dos desafortunados.

Seu final, o verdadeiro final (ignorando o gancho pós-final para continuações), que ocorre em uma das melhores cenas dessas 8 horas de filme, acontece do alto de um prédio e com cortes exatos, milimétricos, entre um relógio, um doente terminal e um ser humano jogado na neve. São momentos tensos? Nem tanto. O que cria tensão é que a série nos faz pensar sobre tudo que passamos e qual a mensagem de tudo isso. O ser humano merece mais uma chance? Existe esperança? A resposta não é fácil, e a série não desaponta.

Este seria um filme impecável de no máximo três horas de duração. Há momentos muito, muito bons, espalhados pelas rodadas sanguinárias. Mas era uma história boa demais para o serviço de streaming produzir em versão enxuta e acabável. Uma pena, mas um pecadilho menos frente à coesão dessa aventura pensante. Na medida do possível.

Wanderley Caloni, 2021-10-08 22:15:16 -0300

reviews draft series discuss