Self Made: Inspired by the Life of Madam C.J. Walker

2020-03-27 · 3 · 560

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Daquelas séries biográficas que pode ser lida em quinze minutos na internet. E de quebra você estará melhor informado sobre os fatos, e não engolirá a cartilha social corrente. Por exemplo, é óbvio que a filha dessa milionária negra não era lésbica na vida real, assim como não existia uma vilã milionária mestiça para confrontar a pureza do sangue de uma afro-americana. Parece existir apenas uma verdade nessa mistureba roteirizada por Nicole Jefferson, Elle Johnson e a tataraneta da protagonista: no fundo todos gostariam de ser brancos.

O primeiro episódio é amador, com fotografia pedestre e que joga as cenas como o palco de um teatro. Octavia Spencer é a única coisa que nos convence a continuar assistindo os próximos episódios, pois Spencer pode interpretar um poste e esse poste ganhará o Oscar. Os diálogos e a narração em off, risíveis se não fosse pela atriz, nem chegam a se comparar ao teatro, mas de novela. Lembra o meme “cries in spanish” na versão “fala maldades em inglês sulista americano”.

Após o desastroso piloto a fotografia se ajusta ao conteúdo: uma protagonista que enriquece e vira uma versão muito bem-vinda de Dagny Taggart, a heroína de A Revolta de Atlas, clássico absoluto de como empresários são figuras fascinantes mesmo em histórias caricatas como a da novelista filósofa Ayn Rand.

Octavia Spencer continua sendo a melhor coisa da série do começo ao fim. Sua presença sempre eleva a qualidade das cenas, a textura entre os personagens e a profundidade das emoções em jogo. Isso não é graças aos diálogos, que continuam muito ruins. São pedaços de texto genéricos, com quase nenhum momento digno. Exceto quando um ancião, interpretado por Garrett Morris com uma dignidade que falta à série, quando ele dá um sermão em seu filho, lembrando o que era um relacionamento duro de verdade com sua esposa, na época que ambos eram escravos.

Estes são os EUA do início do século 20, em que os escravos livres ainda estão vivos, e os filhos mestiços com seus antigos donos são bem vistos por terem a pele clara. Ou pelo menos essa é a visão entregue pela série dirigida pela dupla DeMane Davis e Kasi Lemmons, escolhidas provavelmente por serem mulheres negras, e não por qualquer virtude narrativa que elas possuam, já que a série se desenvolve sem alma alguma.

Porém, a história de superação de C. J. Walker por si só já seria motivo da série, que busca de forma incessante criar uma vilã para essa heroína sem perceber que assim como no drama de Ayn Rand é a época que vivmos que se torna a verdadeira vilã de uma heroína como Walker, uma mulher que nunca se acostumou a pedir perdão ou licença. Ela faz o que deve ser feito, a despeito do que os outros achem.

Curioso como o bom gosto anda de mãos dadas em obras onde a heroína é uma empresária que move os motores do mundo. Aqui a mescla entre uma série de época com músicas pop contemporâneas é no mínimo desastrosa. É como se estivéssemos assistindo a uma versão com trilha sonora provisória e cuja escolha era o que estava passando no Spotify naquela hora. Esses dois mundos nunca se encaixam em “C. J. Walker”, assim como a cartilha social vigente nunca se encaixará em uma história que enaltece uma mulher que se faz sozinha.

Self Made: Inspired by the Life of Madam C.J. Walker (United States, 2020). Com Octavia Spencer, Tiffany Haddish, Carmen Ejogo, Kevin Carroll, Blair Underwood, Garrett Morris. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · series · Twitter ·