Sense8 S02: Amor Vincit Omnia

2018-06-17 · 4 · 788

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

O cancelamento da série Sense8 pela Netflix nos apresentou um exemplo muito óbvio de como séries bem-feitas não podem funcionar como filmes, pois foram concebidas para expandir o seu mundo personagem a personagem, caso a caso. Quase como uma novela bem feita. E no caso do delírio criativo, poético e existencial de Lana Wachowski, mais do que nunca.

O que ocorre no episódio/segunda temporada se torna um trabalho impressionante dos roteiristas em comprimir uma temporada inteira e todas as suas reviravoltas, incluindo até o final da própria série, resumido em 151 minutos. Para o espectador é exigido um nível de concentração e aceleração da narrativa acima do comum. Para uma série que exige um pouco de exercício mental, principalmente nos diferentes e diversos tipos de cortes entre os oito personagens principais conectados sensorialmente, e ainda mais quando estes entram em ação e exibem cada um suas habilidades em “corpos” diferentes, essa condensação de arcos e reviravoltas é cansativo e vai parecendo aos poucos repetitivo. Quando pela segunda vez um determinado personagem é sequestrado já não temos muita fé de encontrar a redenção esperada desta trama “fora de série”.

Mas sejamos justos desde o começo. E a história recomeça a partir de onde parou, pausando nas memórias e consequentemente na história da infância de Wolfgang (Max Riemelt), um dos dois reféns (um de cada lado da guerra entre espécies) mantido pela organização criminosa da série. Essa é a parte mais singela e mais bela da série, pois depois de acompanharmos a mudança da consciência de pessoas localizadas em espaços diferentes, a transição feita entre o Wolfgang pequeno e já adulto é a mesma transição que qualquer Homo Sapiens está fadado a fazer no decorrer de sua vida. Presos em suas memórias de quem fomos para nos definirmos quem somos e a partir disso viver o quem seremos, somos seres inevitavelmente contidos no tempo; mas nunca somos a mesma pessoa em tempos diferentes. Ao usar o mesmo “truque” narrativo já conhecido pelo espectador da série que é feito entre pessoas diferentes localizadas em lugares diferentes do planeta para a mesma troca, só que agora da mesma pessoa em espaço e tempos distintos, a diretora Lana Wachowski realiza a analogia mais bela que poderia se esperar de uma série cheia de brilhantes ideias a respeito de quem somos: consciências separadas vivendo neste mesmo planeta. E por nunca tentar explicar isso com diálogos expositivos esse se torna também o momento mais econômico.

Iniciando com esse conjunto de transições inspirador, o episódio vai aos poucos se entregando à fórmula já consagrada para os fãs onde há momentos cômicos misturados com momentos de tensão e muita trilha sonora (muitas vezes repetida demais) para ligar esses estados de humor que balançam ao sabor do vento para o respiro do espectador. Isso acontece muitas vezes no mesmo quadro, quando um grupo se concentra em rastrear a vida de Sussurros (Terrence Mann), o maníaco por trás da organização criminosa, enquanto ao fundo vemos o ator do grupo treinando para seu papel. Esse paralelismo é interessante como experimentação, mas em um clima corrido do episódio soa mais como uma tentativa de contar vários acontecimentos o mais rápido possível.

E isso pode-se dizer também dos fechamentos românticos, que são muitos, e que são resolvidos com uma leviandade que soa como desleicho desde o começo. Sim, é preciso perdoar os roteiristas por esses atropelos, pois estão trabalhando com o conteúdo para pelo menos 640 minutos em menos de um quarto desse tempo, mas é necessário também ressaltar que alguns arcos nunca precisariam ser fechados. Principalmente o de Doona Bae, este que soa o mais cafona e jogado de todo o episódio. E o que dizer da resolução na última cena para a mãe da transexual que não a aceita, um verdadeiro bolo ex-machina?

Por outro lado, voltando aos pares românticos, revelar um possível caminho do triângulo amoroso formato pelo casal de indianos e Wolfgang poderia ser previsto pelo objetivo inclusivo da série de todas as formas de amor, e isso é louvável, mas mais uma vez a agilidade com que isso se resolve faz tudo perder seu peso. Através apenas desses exemplos pontuais é possível perceber ao mesmo tempo a força que a série teria em um tempo maior e o desperdício que isso gera em uma história que corre contra o tempo.

Atropelos em cima de atropelos, “Amor Vincit Omnia” é um projeto que começou já tendendo ao fracasso, mas que é simpático para o fã, que é o real objetivo desse fechamento de série. E se o real objetivo foi concluído, o projeto pode ser considerado um sucesso. O fracasso, no caso, é a decisão da Netflix em cancelar uma das poucas séries criativas e pulsantes da atualidade.

Amor Vincit Omnia (Unknwown, 2018). Dirigido por Lana Wachowski. Escrito por Aleksandar Hemon, David Mitchell. Com Doona Bae, Jamie Clayton, Tina Desai, Tuppence Middleton, Toby Onwumere, Max Riemelt. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · series · Twitter ·