Sensual Demais

Este é um rascunho e está sujeito a mudanças.

Segundo filme da trilogia iniciada por Lovers, que é o quinto filme do Dogma 95, este filme do ator e diretor Jean-Marc Barr ainda possui as influências do movimento artístico iniciado por Lars von Trier de quando o ator participou do Dançando no Escuro: sem edições de fotografia e iluminação, cenários praticamente ou muito próximos do real, sons diegéticos, câmera na mão. O que o dogma não cobre é a parte boa: atores fingindo estarem em um filme amador, se divertindo loucamente com uma história estapafúrdia e divertindo o espectador, incerto se está vendo um soft porn caseiro ou um trabalho de apelo ao cinema íntimo e pessoal, longe das grandes avenidas dos estúdios de Hollywood.

Apesar das técnicas pedestres, a história não perde seu ritmo, e os atores são todos conhecidos e fizeram vários filmes, embora este soe totalmente amador e digno de comparação com The Room, o novo clásico dos filmes ruins. No entanto, ele é coerente, apesar de inchado, mas seu inchaço e suposto amadorismo é o que torna ele adorável, impossível de não gostar, porque ele apresenta um protagonista cativante e um diretor despretensioso, apesar de ambos, ou o mesmo, empenhados. Várias cenas parecem mal feitas, mas cumprem o que um filme precisa para fluir. Isso o torna um ótimo filme ruim.

A história envolve um casamento em ruínas porque o marido nunca pode tocar em sua esposa. Fruto de uma peça pregada ainda na adolescência, a pequena cidade está de olho nos bons costumes para garantir que aquela vida pacata e sem graça continue assim para sempre. O que muda a rotina de cabeça pra baixo é quando surge uma francesinha com "sexo livre" estampado em sua testa. Um prato cheio para Lyle, que garantia o funcionamento adequado dos seus hormônios se masturbando no meio do milharal. Agora ele pode sempre pedir a ajuda da sexy Juliette.

Os segredos por trás do passado de Lyle vão se desvendando conforme a cidadezinha vai acordando para a presença de Juliette. Enquanto isso acompanhamos várias cenas de sexo entre os dois, mas apesar da nudez gratuita não são cenas picantes. Jean-Marc filma tudo como se não soubesse ao certo o que torna uma cena picante, mas a cadência na edição e no movimento da câmera dá a impressão de que o filme vai piscar a qualquer momento para o espectador e dizer: "pensou que fosse um filme ruim, mesmo, né"?

Mas o ator Jean-Marc abraça a causa, e dança no bar da cidade de uma maneira que não consigo descrever em palavras, mas que é exagerado demais para fazer sentido, ao mesmo tempo que é exagerado demais para ser fingido. Esta é uma atuação que está sempre na corda bamba entre o amadorismo e o controle absoluto de uma coleção de vídeos caseiros. E Lyle é o epicentro dessa bagunça organizada. Ele sorri quando vê a francesinha. É incapaz de se chatear com qualquer coisa. Ele é burro demais para isso. E pessoas burras demais são as mais felizes.

Há várias pontas somadas de Rosanna Arquette, que faz a esposa de Kyle. Ela também se masturba às escondidas, pois a penetração com o marido é impensável. Ela também participa de cenas de nudez, porque no fundo este filme precisa se pagar. A sobrinha de Rosanna, Patricia, é a atriz mais conhecida da família, mas Rosanna aqui desenvolve a performance mais crível de todas. Ela está muito à vontade na posição de uma viúva que encontrou a única maneira de encontrar outro partido e se manter viúva. Sua hipocrisia é a mais deliciosa do longa.

Eu não sei bem o que motivou a atriz Élodie Bouchez em fazer a francesinha Juliette nesse filme, mas ela é tão descartável que parece estar de férias da profissão. Nos faz pensar em o quê define o cinema como indústria, e em que momento nós perdemos esse contato mais íntimo com a arte de contar histórias pelo audiovisual. YouTubers contemporâneos abusam da edição e da qualidade de vídeo enquanto um cineasta como Jean-Marc Barr regride décadas para tentar buscar a resposta. E Bouchez se diverte no processo. Há algumas questões interessantes nesse filme, mas poucas são desenvolvidas. Quero mais filmes como esse.

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