Sherlock: A Study in Pink

Um estudo em rosa. A segunda visita a este episódio é mais lenta. Estamos sendo apresentados a Sherlock Holmes, Dr. Watson e como esta série atualiza o formato de histórias clássicas da dupla já imortalizada nos cinemas e na literatura. E o resultado não poderia ser melhor. Cortes ligeiros da mise en scene pela metade criam transições elegantes entre cenários. O uso da tecnologia da internet e dos celulares está totalmente integrado à história. E, de uma maneira meticulosa, engrenada, a edição e a trilha sonora embalam diálogos memoráveis desde o começo.

É preciso ter em mente que este é um episódio que vai construindo o universo destes dois personagens. E Benedict Cumberbatch e Martin Freeman parecem absolutamente à vontade em seus papéis, criando em torno deles e de suas personas elementos que nos permitirão observá-los em outros casos, como a ironia de Sherlock, a ingenuidade de Watson, e aquele sentimento que ambos esboçam quando concluem seu raciocínio: mais uma peça encaixada no quebra-cabeças.

O roteiro de Steven Moffat pega nas mãos do espectador e vai deixando pistas que permitem que nós antes mesmo de Sherlock concluamos algumas trilhas de pensamento deste. Porém, isso só vai ser realmente óbvio ao final do raciocínio. Note como a insistência na pergunta em qual pessoa passaria despercebida nas ruas de Londres possui uma certa ingenuidade e um tratamento charmoso do diretor Paul McGuigan, que nos apresenta a resposta acho que duas vezes antes mesmo de Sherlock chegar à conclusão.

Sherlock Holmes: Shut up. DI Lestrade: I didn't say anything. Sherlock Holmes: You were thinking. It's annoying.

Dr John Watson: Have you talked to the police? Sherlock Holmes: Four people are dead, there isn't time to talk to the police. Dr John Watson: So why are you talking to me? Sherlock Holmes: [morosely] Mrs. Hudson took my skull. Dr John Watson: So I'm basically filling in for your skull? Sherlock Holmes: Relax, you're doing fine.

Sherlock Holmes: Dear God, what is it like in your funny little brains? It must be so boring!

Sherlock Holmes: Seen a lot of injuries then. Violent deaths. Dr John Watson: Well, yes. Sherlock Holmes: Bit of trouble too, I bet? Dr John Watson: Of course. Yes. Enough... for a lifetime, far too much. Sherlock Holmes: Want to see some more? Dr John Watson: Oh God, yes.

Dr John Watson: I'm supposed to be helping you pay the rent. Sherlock Holmes: Yeah, well, this is more fun. Dr John Watson: Fun? There's a woman lying dead. Sherlock Holmes: Perfectly sound analysis but I was hoping you'd go deeper.

Claro que este modo fácil de jogar irá acontecer apenas neste piloto oficial. O piloto não-oficial nunca foi ao ar depois que a BBC pediu por mudanças drásticas no ritmo e abordagem da história, inflando os episódios de uma hora para 90 minutos. Essa pegada mais canon, pautada no conteúdo original de Sir Arthur Donan Doyle, é brilhante em resgatar a mesma atmosfera dos filmes das décadas de 30 e 40, com a dupla na pele de Basil Rathbone e Nigel Bruce, em versão contemporânea do detetive mais famoso de todos os tempos. O resto da série toma uma crescente que se torna mais e mais profunda, afastando o espectador médio e fidelizando os poucos com cérebro e paciência para se dar o prazer de se envolver em algo, e não apenas zapear os streamings.

Wanderley Caloni, 2018-01-25

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