Sherlock: A Study in Pink

Wanderley Caloni, 2018-01-25.

Um estudo em rosa. A segunda visita a este episódio é mais lenta. Estamos sendo apresentados a Sherlock Holmes, Dr. Watson e como esta série atualiza o formato de histórias clássicas da dupla já imortalizada nos cinemas e na literatura. E o resultado não poderia ser melhor. Cortes ligeiros da mise en scene pela metade criam transições elegantes entre cenários. O uso da tecnologia da internet e dos celulares está totalmente integrado à história. E, de uma maneira meticulosa, engrenada, a edição e a trilha sonora embalam diálogos memoráveis desde o começo.

É preciso ter em mente que este é um episódio que vai construindo o universo destes dois personagens. E Benedict Cumberbatch e Martin Freeman parecem absolutamente à vontade em seus papéis, criando em torno deles e de suas personas elementos que nos permitirão observá-los em outros casos, como a ironia de Sherlock, a ingenuidade de Watson, e aquele sentimento que ambos esboçam quando concluem seu raciocínio: mais uma peça encaixada no quebra-cabeças.

O roteiro de Steven Moffat pega nas mãos do espectador e vai deixando pistas que permitem que nós antes mesmo de Sherlock concluamos algumas trilhas de pensamento deste. Porém, isso só vai ser realmente óbvio ao final do raciocínio. Note como a insistência na pergunta em qual pessoa passaria despercebida nas ruas de Londres possui uma certa ingenuidade e um tratamento charmoso do diretor Paul McGuigan, que nos apresenta a resposta acho que duas vezes antes mesmo de Sherlock chegar à conclusão.

Claro que este modo fácil de jogar irá acontecer apenas neste piloto oficial. O piloto não-oficial nunca foi ao ar depois que a BBC pediu por mudanças drásticas no ritmo e abordagem da história, inflando os episódios de uma hora para 90 minutos. Essa pegada mais canon, pautada no conteúdo original de Sir Arthur Donan Doyle, é brilhante em resgatar a mesma atmosfera dos filmes das décadas de 30 e 40, com a dupla na pele de Basil Rathbone e Nigel Bruce, em versão contemporânea do detetive mais famoso de todos os tempos. O resto da série toma uma crescente que se torna mais e mais profunda, afastando o espectador médio e fidelizando os poucos com cérebro e paciência para se dar o prazer de se envolver em algo, e não apenas zapear os streamings.

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