Sherlock: The Abominable Bride

A quarta temporada da série possui apenas um episódio por enquanto, e como todos os episódios anteriores, do tamanho de um filme de uma hora e meia, mantendo um clima morno metade do seu tempo, diminuindo seu ritmo para retratar a época vitoriana abandonada pela própria premissa da série de se atualizar. Neste episódio estamos na época original de Sherlock Holmes, e em uma de suas história originais, vinda de seus livros que, claro, continuam aqui sendo escritos por Watson.

O episódio, claro, utiliza os mesmos atores e personagens, mas em disposições ligeiramente diferentes: o irmão mais velho de Sherlock é gigantesco de gordo, e Molly Hooper se disfarça de homem para trabalhar no necrotério. E o roteiro se diverte imensamente dessas diferenças: Sherlock e o irmão apostam em quanto tempo Mycroft irá morrer por comer feito um porco e, em vez de não perceber o amor platônico de Hooper, Holmes não percebe que ela é uma mulher de bigode. O grande trunfo deste episódio é dar uma oxigenada na série e reviver momentos semelhantes de maneira diferente ao de costume.

Além de manter os artifícios que tornaram "Sherlock" um trabalho monumental de roteiro e uma evolução no que diz respeito a direção de arte e fotografia, a direção mantém o mesmo ritmo de melhora contínua. As transições elegantes entre um labirinto de plantas e os dedos pensativos de Holmes ou um testemunho na sala de estar do detetive "se jogando" frente à cena do crime são dois exemplos de uma série racional, pautada em diálogos, mas sem perder seu dinamismo visual, sua provocação constante e eclética na mente do espectador.

Sendo assim, se é divertido acompanhar os letreiros que pulam na tela quando um personagem recebe um bilhete, ou os recortes de jornais flutuando em frente a um Sherlock Holmes concentrado e dopado, esses detalhes escalam para o nível de brilhantismo quando descobrimos a verdade por trás da história, fazendo com que o roteiro de Mark Gatiss e Steven Moffat figure com honra entre os deliciosamente mais complexos e inusitados da série, provavelmente do lado de A Scandal in Belgravia. Depois da reviravolta principal nada mais parece o mesmo, e até um espectador menos atento irá perceber as referências inseridas de maneira mais orgânica até do que trabalhos igualmente minuciosos como A Origem, que é excelente, mas burocrático e técnico.

Jogando o espectador nos exatos quatro minutos em que Sherlock foi expatriado, logo no final do episódio anterior, a abertura desta quarta temporada é um trabalho tão ambicioso que mais uma vez sou obrigado a compará-lo com o melhor que o Cinema tem a oferecer. Mais uma vez um trabalho que merece não só estrear em streaming, mas ocupar algumas salas de cinema pelo mundo.

Wanderley Caloni, 2016-04-07 00:00:00 +0000

reviews series discuss