Sobre Nosso Déficit de Atenção

Wanderley Caloni, 2020-11-14.

Nossa sociedade produtiva está doente, mas apenas constatar o fato não começa o tratamento. Nós sabemos os sintomas e a causa. A causa é a evolução tecnológica se aproveitando de nossas falhas biológicas por grandes corporações para vender anúncios. Os sintomas é uma geração inteira diminuindo sua capacidade de concentração e vivendo como autômatos que clicam em links.

Ironicamente existe uma análise 1 feita por Tristan Harris, ex-eticista do Google e filósofo, que relaciona a "indústria da atenção" com a de alimentos, que aumenta níveis de sal, açúcar e outros condimentos para manipular nossa tendência a esses sabores. A nova indústria de entretenimento online utiliza a mesma estratégia, exacerbando nosso mecanismo de recompensas orientado por injeção de dopamina para fazer-nos cada vez mais checar por notificações quando estamos entediados, em um sistema de feedback positivo cujo final é não termos mais paciência para a realidade em nossa volta, e não conseguirmos mais parar de navegar pela infinitas luzes piscantes nas telas de nossos celulares.

No livro Deep Work, de Cal Newport, o autor apresenta uma defesa de que é cada vez mais preocupante a escassez de pessoas no mercado com a habilidade de conseguir se concentrar por muito tempo em tarefas que exigem total atenção. Três trabalhos citados no livro, de William Powers 2, John Freemans 3 e Alex Soojung-Kin 4, concordam que ferramentas de networking estão monopolizando nossa atenção, ao mesmo tempo que degradando nossa capacidade de permanecer focados.

Apesar de sabermos desse efeito desde o nascimento da TV e dos vídeo-games, é agora que a causa científica da epidemia dos devaneios crônicos está chegando em um consenso. A resposta estaria ligada a uma camada gordurosa de tecido que envolve a conexão entre axônios no cérebro chamada mielina. Sua função é proteger e melhorar a comunicação entre as células cerebrais, e melhora aqui se traduz em trocas mais rápidas de informação dentro do cérebro (e com menos ruído).

Essa camada é construída naturalmente em torno das conexões mais usadas pela repetição de seu uso. As responsáveis por construí-las são outras células que mantêm o sistema neurológico. Elas detectam o uso repetido de neurônios e produzem camadas de mielina para proteger essas conexões.

A tradução leiga dessa descoberta científica já é de conhecimento comum há gerações: quando alguém se concentra em aprender algo os alicerces do conhecimento se tornam mais sólidos. Sabemos agora pela ciência que isso acontece porque quando a pessoa está efetuando uma única atividade sem distrações a tarefa de inocular as conexões cerebrais responsáveis por manter a informação não precisa ser compartilhada com outras fontes de atenção. É por isso que se alguém está aprendendo um novo idioma enquanto checa o Instagram essa pessoa absorve menos do que alguém 100% focado no novo conhecimento.

O importante a se lembrar desse processo no cérebro é que ele é permanente. A pessoa não consegue mais absorver melhor novo conhecimento sobre um assunto com o mesmo potencial se estivesse aprendendo pela primeira vez. Claro que com mais prática sabemos ser possível melhorar em qualquer área, mas a própria habilidade em aprender está sujeita a essa dinâmica de fortalecimento cerebral, e portanto abalada pelas constantes interrupções e multitasking da vida moderna.

Paradoxalmente, por outro lado, é conhecido que a melhor maneira de relembrar um conhecimento obtido anteriormente é interrompê-lo sem concluí-lo. O efeito Zeigarnik, nomeado por causa da cientista soviética que o descobriu, é o motivo pelo qual é muito mais simples continuar o trabalho do dia anterior se ele estiver com lacunas a ser preenchidas. Exemplos seriam um escritor que deixa um parágrafo pela metade ou um estudante que deixa um cálculo matemático a terminar. É importante lembrar, porém, que houve tentativas mais recentes de tentar reproduzir este efeito sem sucesso. Acredite com cautela.

Por fim, a tecnologia crescente pode estar desempenhando uma mudança mais significativa do que imaginamos na concepção do que é ser humano. Essa afirmação não está pautada em estudos, mas em observação humana. Daniel, o autor do texto Technology is Heroin 5, relaciona o uso passivo da evolução em comunicação e entretenimento com a evolução do uso de drogas como heroína e ópio na época que eram comprados na farmácia da esquina. Na época a sociedade diminuiu sua produtividade, a economia começou a sofrer e a função humana nas relações sociais e de trabalho estava colapsando como um todo (carece de fontes). E a tecnologia poderia ser a segunda onda a destruir essas mesmas relações, ou transformá-las de maneira radical.

O surgimento do gramofone, do rádio, da TV e dos video-games, segundo o autor, está tornando as relações dos indivíduos com sua realidade cada vez mais um ato passivo, e não mais ativo, como era quando os tempos eram mais difíceis ou manuais, e até visitar um amigo ou ouvir sua música favorita era um esforço e tanto. Claro que o texto parte de um ponto de vista mais bucólico e talvez possa ser descartado em seu todo, mas sua mensagem parece possui algo inerentemente verdadeiro nos tempos de hoje: observamos jovens e adultos cada vez mais passivos e alheios à sua realidade, cada um criando sua própria bolha para se proteger do mundo cruel que um dia existiu lá fora.


  1. How Technology Hijacks People’s Minds, Tristan Harris, 2016. Fiz anotações. ↩︎

  2. Hamlet's BlackBerry. William Powers. ↩︎

  3. The Tyranny of E-mail. John Freemans. ↩︎

  4. Pangs The Distraction Addiction. Alex Soojung-Kin. ↩︎

  5. Technology is Heroin, by Daniel. ↩︎

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