The Real St. Nick

2012-05-04

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Quando o filme se inicia, e não sabemos exatamente quem são aquelas crianças, é muito fácil confundi-las com uma situação comum que vemos todos os dias: crianças brincando de aventureiros. Porém, conforme adentramos no mundo lúdico, mas cruel, de suas realidades, a consciência pesa demais para um filme supostamente despretensioso. Mais interessante, porém, é constatar que as pessoas que as encontram imaginam o mesmo que nós imaginávamos minutos antes, o que não deixa de ser irônico e trágico, pois agora vemos que muito da vida passa na nossa frente sem sequer nos darmos conta. A nossa realidade, andando com pressa pela calçada, não enxerga muito além dela própria.

Melancólico sem sequer forçar uma situação, mas simplesmente expondo a vida dos dois irmãos da maneira mais simples e bucólica possível, o peso dramático acaba ficando maior do que se nos tivessem empurrado uma trilha sonora triste de violinos. No fundo, o simples fato de vermos o menino carregando um porta-violinos e admirando sorrateiramente uma jovem ensaiando o violão em seu quintal é o suficiente para que entendamos muito mais do que qualquer fala que pudesse sair de sua boca pudesse nos revelar.

A menina, em seus gestos e andar tímidos entre as crianças de uma festa de aniversário, em contraponto com sua segurança quando está com o irmão, é um poço de expressão, ainda que na maioria das situações esteja anônima e muda. Fala quando tem algo a dizer (como quando reclama do sanduíche do irmão, para logo depois a vermos degustando o tipo de sanduíche que a faz feliz). O menino, na posição de maior responsável, quase não exibe sorrisos, mas uma distante tristeza em seus olhos sempre serenos.

Cortes certeiros e um ritmo mais que correto dão o tom milimetricamente planejado com uma embalagem indie, mas sem soar clichê/oportunista. É o cinema puro e singelo construído em torno de duas criaturas que aos poucos se tornam adoráveis e melancólicas. Seus motivos não nos interessam, mas o fato de estarem lá, sim. Compartilhamos com elas esse pensamento maldoso de qualquer adulto medroso: como será o amanhã? Haverá mais marshmallows?

Traçando um pouco das influências que Terrence Malick teve para criar sua Árvore da Vida, a fotografia naturalista e os movimentos involuntários ao sabor do vento criam uma poesia involuntária incapaz de ser atingida por qualquer filtro fotográfico qualquer, embora as paisagens do horizonte sejam de encher o coração. É a poesia da vida real, da dura realidade de duas crianças que, ainda que passem seus sufocos, ainda podem sonhar.

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