Tenet

Nolan finalmente nos entrega uma bomba. Uma bomba confusa e que não dá os cliques necessários para o espectador continuar na jornada e se interessar pelos personagens. No lugar ele nos entrega um plot completamente entregue às brincadeiras pseudo-científicas que lembram as que o diretor usou em Interestelar. Mas seu sci-fi anterior pelo menos possuía temas promissores que encantam pelas rimas com o mundo contemporâneo. Em Tenet é tudo sobre a brincadeira e nada sobre o fator humano.

Mas não podemos pedir humanidade de um diretor obcecado pelos jogos visuais intrincados de seus trabalhos intelectualmente mais apaixonantes, como A Origem ou O Grande Truque. A virtude desses trabalhos anteriores estava no gancho pessoal dos dramas pessoais dos personagens. Aqui não temos esse luxo e tudo se perde em passarmos o filme inteiro tentando entender a lógica intrínseca desse universo, não dando tempo para nos interessarmos nos seres humanos do filme, que viram plot devices vazios.

O "Protagonista", cujo nome nunca sabemos, é John David Washington, cuja força de presença é desperdiçada junto de outro ator de peso, Robert Pattinson, que quase nos entrega uma pessoa em quem se espelhar. Ambos estão em uma operação que irá salvar o mundo presente das mãos dos arquitetos do futuro. O que as próximas gerações desejam de nós? Isso é óbvio, mas é entregue em uma fala discreta que talvez você nem perceba.

Isso porque estamos anestesiados pelo nossa impotência em compreender boa parte das cenas, que brincam com o verdadeiro protagonista da história: objetos e pessoas cuja ações se passam invertidas no tempo, uma invenção dos vilões do futuro usada por um vilão do presente. O ator que o interpreta também quase entrega a coisa real, mas vira uma caricatura no processo graças o roteiro do próprio Nolan, que infelizmente não conhece a natureza humana a ponto de entender sua maldade mais pura.

Nem o amor. Em poucas cenas o herói do filme decide que precisa salvar a donzela do filme acima do mundo. Uma donzela fria, alta e magra. Foi uma tentativa de Bondzar este que também é um filme de detetives misturado no meio com operações estilo SWAT e vídeos de explosões invertidas para saciar o desejo estético da criança interna do diretor.

Tenet é um filme ruim, mas não detestável, pois não há como desgostar das brincadeiras de uma criança que leva a sério as mais ingênuas bobagens que nossa imaginação consegue conceber.

Wanderley Caloni, 2021-09-08 20:30:56 -0300

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