Tesouro Perdido

Wanderley Caloni, 2020-05-04.

Este é o primeiro filme mudo p&b brasileiro que vejo. E é no mínimo uma confusão sofrível. Seu idealizador, Humberto Mauro, um self-made man, estudou engenharia elétrica e gostava dos mecanismos por trás da fotografia. Daí para o cinema foi um pulo. Ele consegue uma parceria e filma já em sua própria Terra Natal, lá em Minas. Um pioneiro do cinema nacional. Este é seu segundo longa, que conta uma história confusa sobre a herança de antepassados que esconderam dos brasileiros um tesouro da época da independência (eles tomaram partido dos portugueses), e agora que o pai do protagonista morre deixa um "roteiro" (assim era escrito) para o tal tesouro. Bandidos se interessam e começa o que seria uma aventura, com cavalo a galope, mortes e muita emoção com uma moral no final de que o verdadeiro tesouro é o amor.

Mas de amor a época não tinha nada. As mulheres do filme parece que não podiam falar. Quer dizer, não podiam mexer os lábios e ter sua fala traduzida em letreiros. Podiam exibir sua formosura com muita discrição. Os homens de Minas é que decidiam tudo, a base de lutas, armas e maquinação. É o cinema do engenheiro, do técnico, mas sem qualquer especialização ou excelência, revelando um pouco de nossa cultura, inadvertidamente.

O filme está disponível em DVD em péssimo estado. Os negativos se perderam e fizeram uma conversão menor para ajustar o tamanho do gosto da época, bem ao estilo brasileiro. O próprio Humberto Mauro sentenciou o resultado como imprestável. E eu concordo. Mas talvez ele já fosse imprestável desde a época em que foi lançado, no original. Nunca saberemos.

Duas características marcantes (e entediantes) deste longa mudo é ele não possuir música de fundo e conter muitas falas. A ausência de música é até didática, pois ensina ao espectador a falta que faz, sobretudo para impor ritmo e tema às cenas. Já as falas são um embaraço. Nenhuma delas, apesar de cheia de palavras, diz muita coisa. Só faz o espectador ler e ler. E nessa versão do DVD tem que tentar ler uns borrões mal iluminados, estourando no contraste. Em algum momento você desiste e apenas continua vendo as imagens borradas, tentando discernir uma vaca de um cachorro. O cachorro é preto neste filme e parece uma falha no negativo.

Este é um filme quase documental. Um making off do estado lamentável do cinema brasileiro. Mais tarde o diretor começaria outra parceria em que produziria mini-documentários da vida brasileira. Foi aí que ficou conhecido como alguém de valor.

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