The Batman

O que é isso, gente. Esse de longe é o Batman mais feio, mais raquítico e menos másculo de toda a saga. Perde até para o da série de TV dos anos 60, que pelo menos dava uns tabefes no Coringa.

Ele é o alterego de Bruce Wayne, o pobre órfão de pai e mãe que herdou alguns bilhões e cresceu revoltadinho. Sua maquiagem, seu cabelo longo e mal feito, suas roupas desajeitadas levam a crer que ele ou é emo ou é gótico (ou os dois). Mas ele nasceu e cresceu em Gothan City, a cidade gótica, então pelo jeito nosso garoto já escolheu um lado. A cidade também. Diferente dos últimos filmes de Chris Nolan, que sanitiza a experiência de habitar uma Nova York menos quadrada, e diferente do divertido caos idealizado pelo fantasioso Tim Burton, o diretor Matt Reeves usa sua sensibilidade prática para pedir ao departamento de arte algo mais sujo, decadente e realista. Reeves é responsável pelos novos e impecáveis Planeta dos Macacos, e aqui o filme ganha as mesmas virtudes estéticas: funcionais e estéreis. Do fundo dos cenários vemos construções góticas envoltas em uma cidade decadente, vítima do socialismo institucionalizado. Seu último filantropo, o ricaço Thomas Wayne, assassinado antes de se candidatar a prefeito, deixou uma fortuna para projetos sociais, e todo mundo que viveu a Era Lula sabe o que isso significa nas mãos de políticos: um Mensalão generalizado que só verá fim agora que minorias são colocadas no holofote como representantes de moralidade e justiça por serem minorias.

Mas deixemos esses detalhes de cartilha de lado, que nem importam mais. Nessa época racista onde pode-se usar a expressão "ricos brancos safados", a mulher-gato é um pitelzinho justamente por ser parda. Diferente daquela sem graça da branquinha de Nolan -- Anne Hathaway, tinha esquecido até o nome -- Zoë Kravitz tem pegada e atitude. Não tanto quanto a inesquecível Michelle Pfeiffer, mas tem. E mais até que Robert Pattinson, que observa tudo de longe em seu niilismo que se transfigura em uma loucura funcional movida por uma espécie de vingança adolescente com muito dinheiro no banco. Bruce não consegue se comunicar; é um recluso, apenas olha para as pessoas e observa, embora mantenha um diário detalhado por dois anos de seu projeto de justiceiro, que acaba virando a narração em off do filme, um belo toque à narrativa.

The Batman é um filme excessivamente longo porque ele teme o inevitável: que percamos o interesse. O que acaba acontecendo inevitavelmente nos minutos iniciais. E eis a estratégia para ganharmos o interesse novamente: nos acostumarmos com essa atmosfera e seus repetidos e ligeiramente diferentes personagens. No início do terceiro ato vemos uma bela performance do sempre ótimo Paul Dano por uns cinco minutos e temos a impressão de que o filme como um todo foi mais instigante, e não um apanhado de frases prontas ditas mecanicamente em um set estilo parque de diversões para crianças que se acham adultas. Quem em pleno 2022 tem coragem de recriar cenas de carros surgindo voando por uma névoa e a visão de um vingador se aproximando lentamente de ponta-cabeça, uma metáfora tão óbvia de morcego que dá sono? Porém, o mais importante para nunca mantermos nosso interesse: esse Batman nunca se revelou peça chave nessa dinâmica pela definição e posterior busca por justiça.

E como definir a justiça em tempos tão líquidos? Há algumas injustiças pessoais sendo praticadas no filme em torno de impunidade, negligência e corrupção, mas nada tão sistêmico a ponto de precisar ser corrigido, ou se precisa ser corrigido não se pode confiar no mesmo sistema que a quebrou; um detalhe que a hoje admirável trilogia de Nolan soube explorar tão bem. O fato é que desde o pano de fundo do mais honesto Coringa (Todd Phillips, 2019) alguma coisa mudou para surgir esse lampejo de ingenuidade nos idealizadores de filmes dos supers.

Uma pista é que este é um filme que quer se redimir dos insossos e insuportáveis Batman Vs Superman e Liga da Justiça. E ele começa de maneira nada sutil, ressignificando Ave Maria, a música que se tornou um porre porque Zack Snyder simplesmente não consegue parar de usar em seus trabalhos. O roteiro de Reeves junto de Peter Craig (escritor do final de Jogos Vorazes) vai além, inventando ou usando mais uma mãe morta cujo nome é Martha, para comprovar que vindo da DC zoeira pouca é bobagem (para os desavisados: há uma piada, ou vou chamar de piada, no final em BvS envolvendo mães com o nome Martha).

Por fim, este é um trabalho técnico, e os fãs autistas geralmente se apaixonam pelo filme só por isso, se esquecem da arte implícita nessas obras. E não é à toa que o fã clube de Christopher Nolan reúna tantas pessoas no espectro. Então, nada mais justo que admirar as virtudes de mais uma produção estéril em ideias e pesada na maquiagem.

A fotografia, por exemplo, que encara essa arte gótica ressignificada, é a mais escura de todos os Batmans, além de amarelo âmbar, e com o uso de muitos cortes e algumas cenas de ação deixa tudo geograficamente bem confuso de acompanhar. O lado bom é que há pouca iconografia e aqueles momentos solenes de Snyder em câmera lenta que todos nós agradecemos por não existir neste filme, mas ainda assim todas as cenas dramáticas continuam solenes demais a ponto de não ter a mínima graça e zero engajamento. Este é um Batman de passagem, não liga muito para si mesmo, e nós nos lembraremos dos de Nolan daqui a alguns anos. Desse não.

E por fim novamente, já que detalhes técnicos são o parâmetro de qualidade na arte cinematográfica do século 21, talvez a exceção virtuosa seja mesmo a trilha sonora, que vem com um tema bacana, de Michael Giacchino, que poderá ser inserido em continuações mais lentas e cínicas. Quem sabe a produção emplaca e poderemos aguardar por um Robert Pattinson mais velho e igualmente cínico, próximo da persona de Ben Affleck em BvS, que assim como Paul Dano tem se tornado uma versão distorcida de alguém verdadeiramente maluco. Poderá o envelhecimento ser a salvação dos heróis e vilões da DC?

Wanderley Caloni, 2022-05-01 13:54:13 -0300

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