The Chair

Esta série de comédia fala sobre vários assuntos, mas o principal é sobre a arte de pisar em ovos no século 21. O que é muito importante se você tem medo de ser cancelado, mas é duplamente divertido quando a lupa que se vira para a sociedade contemporânea revela mais do que talvez gostaria.

Vejamos o caso clássico do nazismo. É um assunto super-sério nos dias de hoje. Em jornais e revistas de prestígio, como New York Times, ou The New Yorker, incessantes artigos brotam toda semana sobre o quão sério e preocupante é esse assunto. Se você tem o mínimo conhecimento sobre certas rodinhas virtuais na internet já deve estar sabendo que a supremacia branca de extrema direita está mais forte do que nunca na deep web. Para ter uma ideia do perigo, saiba que eles adotaram um sapinho super-simpático como mascote, e isso é super-sério. Não ria. Você é nazista? Então não deveria fazer o sinal nazista. Nem falar sobre isso. Exceto com muita, muita seriedade. De preferência com o olhar pesado e temeroso quando ver algum meme com o sapinho. Não espalhe, apenas lamente. Se for rir, ria com respeito, e na privacidade do seu lar.

O mais fascinante é que a história do nazismo começa como uma aparente trupe de estudantes alienados que utilizam o gif de um professor da universidade onde estudam. O professor faz o gesto nazista momentos antes de relacionar dois assuntos de sua aula aquele dia, fascismo e absurdismo. Essa não é a parte fascinante. Esses estudantes estão endividados e precisam continuar estudando em uma escola de prestígio. Não se podem dar ao luxo de qualquer burburinho sobre a reputação do local onde pretendem se dedicar a conseguir seus diplomas se espalhe e vire conhecimento comum. Do contrário estarão endividados e com um diploma que não vale nada no mercado.

A parte fascinante é a dívida. O Capital, que manda em todo mundo, agora exige que estudantes universitários não possuam discernimento e senso crítico. Tudo o que o Capital deseja, ou o que seus representantes desejam, é que não se faça o sinal nazista em vão. Ou nunca mais. Respeitem o povo que sofreu as mazelas desse acontecimento inexplicável do holocausto e tudo o que segue, como a quantidade absurda de mortes em tempo recorde, humanamente impossível. E é função da nova geração pensante defender esses valores a qualquer custo. O capitalismo está praticamente exigindo que se bloqueie toda e qualquer forma de se falar nesse assunto. Não é lindo o que o Capital não faz por nossa sociedade?

The Chair nos seus momentos iniciais tem tudo para se tornar uma comédia instigante sobre o mecanismo da sociedade contemporânea em sua guerra de desinformação e censura em torno de instituições decadentes como faculdades de literatura. Os já velhos temas do século como racismo e feminismo são o pano de fundo necessário para enxergarmos o estrago irreparável na cabeça de nossos jovens em um divertido laboratório que analisa com um sarcasmo afiado a derrocada dos valores ocidentais que tornaram a América o império que ironicamente permitiu que essa geração tivesse tempo de sobra para se ofenderem e pouco tempo para lavar louça.

No entanto, esta é uma série Netflix. Então já sabe. A novelinha começa a se estender lá pelo quarto a quinto episódios. Se torna inchado. Acredita que seus personagens darão conta sem roteiro, só com interações infinitas. O que é uma pena. Já me esqueci o que eu estava assistindo, e não assistirei mais.

Wanderley Caloni, 2021-09-03 21:52:16 -0300

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