The Drug King

2020-07-05

Eu poderia dizer que é uma mistura de Scarface, O Poderoso Chefão, Os Bons Companheiros e a história do mafioso da Colômbia Pablo Escobar, tudo embalado em versão coreana. Mas se eu fizesse isso estaria me ajoelhando diante dos chefões da Netflix, responsáveis pela produção, e pior, estaria sendo muito desonesto comparando essas obras primas com uma aventura passageira e esquecível como esta, que além de não ter a mínima personalidade não faz questão alguma de buscar ter uma.

Olhe para as cenas e vai encontrar um filme de máfia feito por quem olhou filmes de máfia e apenas copiou. Luta de gangues em um hotel. Boate mostrando os poderosos montando esquema. Escritório do chefão cuja escalada burocrática acompanhamos com quatro espingardas em estante de vidro e muitas drogas.

Agora olhe dentro de si, caro espectador e leitor. Compare esses momentos com as grandes cenas dos filmes supracitados e lembre-se por que elas fazem você se sentir vivo. Este filme não nos faz sentir nada como contraparte. Um vazio inexplicável. Como toda droga que vicia, conforme explicado no próprio, a melhor dose é a primeira. Depois só ladeira abaixo.

Por analogia com as drogas, os primeiros filmes de máfia foram os melhores e definitivos, e assistindo uma produção hoje em dia com esse mesmo tema não gera quase nenhum efeito. Estamos anestesiados de tantos filmes parecidos com o que já vimos. O diretor Min-ho Woo quer que vejamos seu filme com reprovação, como a enésima e desgastada dose de algo que era divino, mas que hoje nem percebemos que estamos assistindo. Ele quer que associemos sua droga de filme com uma droga alucinógena. O que ele verdadeiramente quer dizer nas entrelinhas: fuja dos filmes de máfia. Inclusive do meu.

Em uma coisa Min-ho tem razão: seu filme é uma droga. Pessimamente executado. Vazio de alma. Sua trilha sonora é terrível, batida, clichê, chinfrim. Min-ho está dirigindo um filme que odeia apenas para que você receba esta linda mensagem de desprezo pelo cinema. E seria até uma mensagem válida se outro diretor, Martin Scorsese, não tivesse já enviado duas mensagens. Em uma delas ele nos presenteou com O Irlandês, um novo filme de gênero com três horas e meia de duração que é uma verdadeira pérola. Redescobre o cinema em um gênero surrado por pessoas como Min-ho. Possui uma edição assustadoramente fluida de Thelma Schoonmaker e atuações de uma velha guarda merecedora de prêmios. E nada nos lembra dos filmes anteriores, seja do diretor ou do gênero. Cria algo novo com uma fórmula conhecida. É uma obra de arte instantânea. Isso por si só já refutaria essa repulsa de Min-ho.

O Irlandês já seria motivo de sobra, mas sete anos antes houve uma primeira mensagem sobre os ricos e poderosos do mesmo diretor que lida com escalada e derrocada da mesma maneira que Min-ho flerta tratar aqui. Dessa vez com os caras da grana, em O Lobo de Wall Street. Se trata de uma imersão divertidíssima e hilariante em suas três horas cravadas, mas ainda por cima se você quiser pensar a respeito a mensagem do filme é claramente moralista. Scorsese está condenando essas pessoas que se divertem e nos divertem na tela, e faz isso sem precisar tornar seu conteúdo um porre. Pelo contrário, é um dos filmes mais divertidos daquele ano.

Martin já nos fez o favor de refutar The Drug King com duas obras primas do cinema na década passada para que eu não tenha que explicar que um filme que deseja nos fazer condenar o comportamento de seus personagens não precisa ser leve nem chato demais. Ele só precisa ser honesto.

The Drug King não é um filme nem divertido, nem dramático, nem honesto. Nós nunca sabemos porque um ourives vira de repente o traficante do pedaço. Nós não sabemos quem esse cara é nem porque virou quem a justiça quer por as mãos, encarnado por um promotor que sabe atirar com espingarda em uma Coreia desarmada, e cuja falta de motivação rivaliza com seu antagonista. Eu não sei quem é o mais sem graça, mas isso não impede que um fique perseguindo o outro.

Há outros personagens jogados em uma história que passa literalmente por décadas enquanto para nós parece apenas um final de semana. A história é inspirada em eventos reais, nas não quer botar a mão no fogo sobre nada, então prefere apenas sugerir relações entre os envolvidos. Não consegue nem evitar usar personagens da vida real nem criar personagens interessante para acompanharmos. Atrizes talentosas como Donna Bae estão no filme e é um desperdício. Tomara que pelo menos tenham pago um bom cachê por suas lindas pernas.

Drogas, dinheiro, armas, mulheres. Poucos conseguem fazer essa coleção ser tão broxante. E The Drug King, além de defender que filmes de máfia já deram, também prova que até esses temas pulsantes se tornam fracos em uma produção algorítmica de streaming. Uma mulher e um homem de divertem em um carrão conversível, mas eles nunca se conectaram de verdade. E mesmo que for um jogo de interesses não sabemos muito bem quais as regras nem porque eles deveriam estar juntos. Eu nem sei se eles estão realmente juntos, pois o filme é incapaz de criar qualquer química entre eles, seja amor ou ódio, quem dirá ambos, ou ódio e luxúria, como visto entre Jordan Belfort e Margot Robbie em O Lobo de Wall Street.

Apesar desse tom morno/frio as pessoas desse filme falam como se fosse a fala de uma vida inteira. Elas fingem estar em um drama complexo e arrebatador enquanto desfilam por um palco vergonhoso de uma história sem imaginação. A fala da esposa do protagonista é dita como se ela sofresse a vida inteira nas mãos de um viciado, ou como se ela fosse a vítima de um dos membros da família Corleone, mas o dinheiro está vindo e nós sabemos que os dois mal convivem. Ele “nem para em casa”, mas não sabemos nem se eles moram juntos. Não dá pra entender sequer a dinâmica da família e muito menos a relação entre os bandidos. Temos que confiar unicamente nessas mal escritas, indizíveis falas.

Não é apenas alma que falta neste projeto, mas lógica. Senso geográfico. Edição. Uma fotografia que não seja apenas o vermelho nebuloso acusador e moralista (e qual a acusação?). Nós acompanhamos por duas horas e meia uma história que já vimos melhor desenvolvida em outro lugar, sem nada que pareça inacreditável, que nos faça enxergar o mundo de outra forma. Não há nada exceto mero passatempo. Um passatempo que suga nossa alma. Netflix, devolva nossa alma de volta. Preciso rever O Irlandês para que minha alma seja sugada como se deve.

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