The IT Crowd

2018-04-16 · 3 · 627

Já tentou desligar e ligar o computador de novo? Sabe o que quer dizer TI? Então talvez você goste dessa comédia britânica em formato de sitcom e seus momentos quase fora da realidade, que nos faz lembrar de maneira muito divertida como (não) funciona o ecossistema do pessoal de suporte técnico.

São dois os personagens principais: o irlandês alto, perdido e com toques afeminados Roy, e o nerd até os ossos Moss. Na pele de Chris O’Dowd e Richard Ayoade, a parte mais engraçada nem são as piadas, mas como o timing físico para comédia dos dois se encaixa em gags rápidas e sagazes.

Há também um elenco de primeira, em que a maior representante é Jen, a gerente de área técnica ideal: sequer sabe como funciona um computador. Com o seu próprio jeito solitário e estranho (não conseguir um namorado vira piada recorrente na série) Jen se comunica em alto e bom som com toda sua equipe de duas pessoas, embora seja ignorada pelo resto da corporação e assediada pelo seu chefe, um herdeiro inconsequente e tão bizarro que é capaz que um ser humano desses realmente exista.

As piadas apelam muito para o cotidiano britânico para atingir seres humanos normais, não sendo apenas sobre pessoas que conhecem a fundo computadores, mas sobre a visão de mundo dos que trabalham na área que só serve para resolver os problemas quando eles aparecem. Moss, por exemplo, o nerd típico dos anos 80 e 90, na pele de Richard Ayoade aposta em movimentos de cabeça sincronizados e falas cheias de pomposidade e formalidade, por mais informais que sejam as situações. Como um incêndio, por exemplo. Seu senso de humor é atípico, quase autista, mas isso não impede que ele seja autêntico. Alheio ao mundo real, seu distanciamento social é dignificante em vez de alvo de chacota, pois Ayoade nunca deixa de levar o seu personagem a sério, e encanta o espectador nessa criatura auto-centrada.

No outro espectro está Roy, que nas mãos de Chris O’Dowd divide com Jen as frustrações românticas da série, pois ele é o estereótipo do anti-charme do nerd, da miopia de estilo, dos movimentos bruscos e sem qualquer tato. Roy mantém um espírito que entende as mulheres, mas é incapaz de se dar bem com elas, exceto com Jen, com quem vai alimentando uma amizade platônica e distante ao nível de virarem parceiros de video-game. Roy é tão perdido quanto Moss, mas ao não admiti-lo, é o alvo das piadas mais maldosas, como a hilária sequência em que ele acredita saber a hora exata em que irá morrer naquele dia.

Jen, por sua vez, na figura da simpática Katherine Parkinson, consegue se sair bem na arte do exagero, com seus tons afetados e expressões enigmáticas. Seu tom de voz é exagerado e sofre distorções no espaço-tempo, menos por ser uma personagem para passar na TV e mais por uma atitude de auto-imposição em um mundo dominado por homens. Seu episódio-ápice é o que ela se insere em um drama auto-contido em uma referência ao universo soviético, em que os fumantes são vistos como os excluídos da sociedade e que resistem até o fim.

A série criada, escrita e dirigida pelo irlandês Graham Linehan expõe o melhor do humor britânico na TV para as massas. Não é algo experimental como Monty Python, mas tem seus momentos altos, mesmo que esses momentos sejam forçados pelas risadas e aplausos falsos de TV. E é uma obra que sobretudo pisca para o pessoal de TI, pois possui tiradas típicas de se comentar na hora do café.

E se você sabe o que é a hora do café em um departamento de TI, então, mais uma vez, The IT Crowd é uma série que você deveria estar vendo agora.

The IT Crowd (United Kingdom, 2006). Com Chris O'Dowd, Richard Ayoade, Katherine Parkinson, Matt Berry, Christopher Morris, Noel Fielding. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · series · Twitter ·