Thor Ragnarök

Você já sabe: todos os filmes de super-heróis são iguais. Pelo menos os da Marvel são. Mas ultimamente alguns têm se tornado mais iguais que outros. Sempre que um filme é lançado temos uma horda de apreciadores e detratores, e ultimamente a horda de apreciadores tem elogiado muito o clima despojado de Dead Pool e Spiderman, além da atmosfera cartunesca e divertida de Guardiões da Galáxia em seus dois volumes. E eis que surge Thor: Ragnarök, repetindo alguns conceitos de sucesso desses trabalhos anteriores e se tornando com isso um dos filmes mais iguais dos últimos anos. E isso, ao falarmos da Marvel, é um senhor elogio.

As histórias envolvendo Thor como protagonista possuem a desvantagem de Chris Hemsworth, que não caracteriza um Deus do Trovão tão fanfarrão quanto gostaríamos, embora esteja mais grande e musculoso (e, pela proporção, com uma cabeça ridiculamente pequena). Chris consegue fazer isso muito bem em "Rush: No Limite da Emoção", logo não é sua culpa. O mais provável é que a censura comercial infanto-juvenil proíba exageros, e é por isso que em todo o filme ele bebe apenas um pint de cerveja. Um pint! Cortesia do Dr. Estranho (Benedict Cumberbatch, abraçando seu papel), que realiza uma pequena participação especial aqui que faz jus ao seu nome.

A personagem que ganha o direito de beber até cair (literalmente) é uma nova, linda, reluzente coletora de lutadores. Valquíria é o título dela. Tessa Thompson (da série Cara Gente Branca) acumula a energia que o longa precisa. E deuses não são muito bons em ação; gostam de falar o tempo todo e se vangloriar. Valquíria não. Ela faz o que tem que fazer, geralmente com um sorriso cínico no rosto. Ela é o preenchimento de cota padrão da Marvel, também, mas nem por isso faz feio.

E por falar em cotas, vários personagens secundários possuem participações pequenas que elevam o filme a um novo patamar. Pelo menos em atuações. Dessa forma, Jeff Goldblum faz o divertido mafioso, com o nome de "grão-mestre", que comanda lutas de gladiadores no dito planeta sem sentido Sakaar (esses nomes ficam bem ruinzinhos lido em português). Acho essa ideia de "planeta sem sentido" desculpa esfarrapada dos roteiristas (aqui temos três) para não ter que explicar muito. Lá encontramos um prisioneiro feito de pedra que, com uma voz fina e falas engraçadas, é uma tentativa de recriar criaturas fantásticas inusitadas justamente como em Guardiões da Galáxia. A dublagem funciona, assim como as piadas. Este casting realmente tem qualidade. E até a ponta de Stan Lee dessa vez é engraçada sem ser gratuita, pois está tão bem inserida na história que podemos considerá-la metalinguística.

E a vilã da vez é Cate Blanchet, que vive seu personagem na mesma altura de seu pai no filme, um Anthony Hopkins sempre necessário. Blanchet leva a sério seu papel, mas não o suficiente para soar caricata. Quando ela quer mete medo, como a forma trivial com que mata o primeiro exército a se opor em Asgard. Ou o único, já que a terra dos deuses nórdicos não é muito populosa, tendo um povo que caberia em um metrô de São Paulo fácil. Em horário de pico.

Trabalhando em conjunto com seu irmão adotivo Loki (Tom Hiddleston) e, quem diria, Hulk, as referências ao primeiro Vingadores são muitas, mas a melhor delas se passa na arena de lutas. Mark Ruffalo também é uma escalação de peso. Tudo para dar substância a mais uma história de Thor sem Natalie Portman.

A direção de arte de Ragnarök impressiona, mas lembra um combinado de estilos. Tanto as brincadeiras temáticas com cores e a trilha sonora lembrando o techno evocam o lado nostálgico visto em Guardiões, mas em uma versão menos inspirada. De qualquer forma, melhor que as trilhas enlatadas dos filmes de heróis (como a ouvida aqui nos créditos finais). O figurino acaba sendo o que mais se destaca, já que há tantas pessoas bem vestidas nesse filme, e com estilo. O pessoal das vizinhanças de Asgard sabe se vestir bem e impressionar. Não se trata apenas de pele pintada de verde, azul ou amarelo como em Guardiões. Os chifres de Cate Blanchet ou os babados do Grão Mestre são únicos na galáxia.

Já o roteiro é completo, redondo, com gosto de trabalho feito. Tudo exigido pelos fãs consta no projeto, com a exceção de algo original, talvez (mas sabemos que os fãs não pedem isso). Ainda assim, exibe a insegurança que tem dos seus espectadores, temendo que o público mais fiel desses filmes, quase geralmente olhando para o celular durante a sessão ou tendo déficit de atenção, não irão notar quando certo personagem comenta que Asgard não é um lugar, mas o seu povo. Só isso para explicar que a mesma coisa é dita mais três vezes no espaço de 20 minutos. Pelo menos uma vez essas crianças vão ter que ouvir isso para entender o que acontece no final.

E por falar em final, é preciso sempre lembrar que esses filmes não entregam um final de fato. Se trata apenas de mais um episódio na interminável série de filmes sobre o universo dos heróis. Todos se interconectam, seja por referências ou pelos créditos finais (aqui há dois). E todos no longo prazo disputam pelo título de filme de super-herói mais igual de todos. Qual a sua aposta?

Wanderley Caloni, escrito para Cinemaqui, 2017-10-25 00:00:00 +0000

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