Tio Boomie, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas

2020-06-22

O diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul afirmou em uma entrevista que acompanha este DVD que “sente inveja de quem vê seus filmes”. Não é apenas a pretensão de um cineasta que vem à tona, mas todo o humor subjacente se lembrarmos que Tio Boomie é um lixo de filme. Inveja de quem assiste? Se ele pelo menos soubesse…

O filme é inspirado em um livro de 1983, mas apenas inspirado. O livro fez tanto sucesso que deve ter alavancado a produção. Há um curta-metragem também, “dirigido” por Apichatpong e lançado pouco tempo antes do longa. Quem viu esse curta antes deve ter pensado: como alguém que vê dezessete intermináveis minutos disso pensa que seria uma boa ideia algo ainda maior?

Os únicos símbolos que conseguem chegar a nós em um filme essencialmente enigmático são a selva, a caverna e os macacos, remetendo a tempos primordiais. Mas ele mais uma vez só faz sentido porque o título já explica sobre o que se trata. Seja sincero: você conseguiria imaginar que este é um filme sobre reencarnação se o título não fosse tão didático? O que seria de um filme desses se um produtor consciente não resolvesse dar pelo menos um fiapo de significado no pôster do lado de fora do cinema?

Ao acreditar em um estilo autoral de se fazer filmes e convicto de suas qualidades de criador, as influências de Weerasethakul acabam revelando essa ponta de pretensão vista em Tio Boomie, louca para sair e gritar para todos ouvirem, mas ao mesmo tempo se mantém firme em seu objetivo primordial de nos fazer passar sono, confusão e essa sensação de estranhamento que pode-se traduzir como… tédio. Em nosso inconsciente surge a dúvida de como o diretor imaginou em algum momento que esse estranhamento seria uma coisa boa, mas o que é mais estranho nesse filme é o quanto o espectador que é fã da obra literária original acaba sabendo mais que seu próprio idealizador.

Esta é a marca da geração de diretores mimados, que junto da crença em um cinema de autor acredita que fazer cinema é combinar estilos, fazer montagem deles, referenciar, homenagear, usar símbolos porque ele aprendeu a usar na faculdade, sem saber que em um longa metragem há a necessidade de alguma conexão entre as partes. Qualquer conexão que não seja “este é o filme do fulano de tal; é assim que ele faz filmes e é uma referência”. Referenciar referências é a forma mais baixa de autocompaixão, que é um disfarce conveniente do orgulho sem motivo. Como qualquer pessoa de vendas sabe, pessoas podem gostar de qualquer coisa se houver alguém convencido do seu lado certo da qualidade incontestável do produto.

Para a parte mais pessoal do seu filme, uma sequência de fotos com uma narração futurista, que obviamente referencia Chris Marker e seu curta-metragem A Pista, inspiração do longa Os Doze Macacos. Nesta cena ele usa seu estilo autoral e quebra a quarta parede, quebra a narrativa, e quebra a nós, espectadores, que estamos na sala de cinema. Qual o objetivo? Eu não sei, e nem ele sabe. E não sou eu que estou dizendo: ele também afirma na tal entrevista.

O uso de diferentes fotografias, no entanto, quase se torna interessante ao tentarmos desvendar a chave das diferentes narrativas. Há um semi-documentário, uma sequência de fotos, um filme para TV e um experimento metalinguístico no mesmo filme, e nenhum deles dialoga com o outro. Nem a fotografia. Então em dado momento o que era quase interessante se torna apenas repugnante. Na onda das referências, há tantas misturas de filmes, todos óbvios e sem sentido. Planeta dos Macacos, 2001, Star Wars. Apenas pelos macacos fantasmas com olhos vermelhos estilo povo do deserto você nota que este é um projeto sem solução. Há mais filmes, mas o resto procure você. Não quero ter mais flashes desse filme. Nem nessa nem em outras vidas.

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