Top Filmes 2018

Como usar esta lista: Antes de enumerar os 9 (nove) filmes que, acredito, mereçam constar em uma lista de consideração pelo Cinema, explico que listas nunca são exaustivas, nunca são permanentes e nunca são objetivas, mas subjetivas, dependendo do tempo-espaço e da pessoa que a compila. Essa que segue tenta fugir um pouco do lugar-comum, mas que irá falhar miseravelmente porque cinéfilos e críticos costumam enxergar a beleza no mesmo lugar. Porém, eu não assisti a todas as belezas cinematográficas que estrearam no Brasil esse ano, o que me dá um pouco de ponto-fora-da-curvisse salutar.

  1. Arábia. O épico do trabalhador comum, anônimo, se esse trabalhador conseguisse colocar tudo que sente e percebe no papel e se este trabalhador saísse do imaginário de Karl Marx e da elite que assim o idealiza. Sua filmagem é tão sutil que ela parece uma fina camada estética que se ergue em torno de um ideal de documentário travestido de ficção. Essa linguagem com não-atores tem ganhado ótimos trabalhos atualmente e 2018 com certeza não é exceção. Há, também, por exemplo:

  2. Ciganos da Ciambra. Um experimento que arrisca utilizar toda uma família (real) de ciganos alocados em uma periferia de uma grande cidade da Itália para contar uma ficção que flerta com a realidade dessas pessoas. E se sai maravilhosamente bem. Ele é tenso, mas ao mesmo tempo solto. Ao mesmo tempo ele caminha com competência em uma narrativa simples, mas eficiente do começo ao fim. Ele fica no lugar de Lazzaro Felice porque diferente do vencedor de melhor roteiro em Cannes este é um filme mais incisivo em vez de simbólico, além de não ter ambições tão grandiosas quanto unir religião e ideologias sociais, algo que soa bizarro (embora eficiente) em Felice.

  3. Você Nunca Esteve Realmente Aqui. Uma mistura de diferentes obras, passando por Psicose, Taxi Driver e Drive, atualizada e que sintetiza uma obra original, sagaz e pertinente sobre uma camada inconsciente que existe hoje em dia e é crítica para sobrevivermos como sociedade: ninguém realmente liga para o problema dos outros. Uma expansão da violência urbana com tons extremamente gráficos, mas que choca mais ao não mostrar o que imaginamos.

  4. A Rota Selvagem. Um filme sobre a descoberta de um jovem pela vida adulta que ganha contornos de épico contemporâneo graças à sensibilidade do tema, que passa por criação de cavalos e a empatia, companheirismo e compaixão que surge, e que termina em uma espiral de vida real e bruta. Um dos melhores trabalhos americanos sobre o tema. Maduro, realista, visceral e que vai até as últimas consequências, ganhando no processo uma profundidade raramente vista em trabalhos dramáticos como esse.

  5. Djon Africa. A pegada naturalista, quase um documentário, que dá autenticidade à ficção. A paisagem vira parte integrante dessa aventura além-mar, quase como uma figura da natureza. O curioso é que paradoxalmente o protagonista passa a importar menos que as situações vividas. Uma revisita admirável pelas origens de um povo, sua terra, sua cultura, sua língua. E as origens não param no ser humano, mas ecoa por toda nossa linguagem de mamíferos e répteis. Uma mensagem otimista feita pelo universo endereçada para o universo.

  6. O Animal Cordial. Um terror psicológico feito em terra brasilis do começo ao fim. Os atores estão praticamente possuídos, assim como a câmera, que vai observando o caos ir tomando conta de um restaurante em fim de noite. Nossa percepção do que é aceitável vai se alterando durante o trajeto, e pensamentos sobre moral e ética surgem no meio de uma espécime do gênero slasher. Quem consegue isso tudo junto merece um pouco de respeito. Sendo uma produção brasileira, então, merece considerações em dobro.

  7. A Garota na Névoa. Um filme que surgiu de um roteiro que foi rejeitado, virou livro de sucesso e por isso foi novamente adaptado para as telas. Tudo pelo seu criador. Se trata de um policial que discute sobre policiais, envolvendo uma trama que entretém ao mesmo tempo que nos faz pensar sobre a linguagem. É um trabalho de peso, com poucas falhas, e que nos faz revirar nossas percepções do que é real. Se trata da trama pela trama, em um trabalho exemplar de sub-gênero independente. E por falar em exercícios de metalinguagem:

  8. Os Fantasmas de Ismael. Há aqui um trabalho quase experimental, mas que é feito de maneira comercial, em uma produção francesa de respeito. O filme não tem respeito por espectadores preguiçosos, que se negam a pensar, o que é uma ótima notícia. Não é perfeito, mas é interessante para refletir a respeito até da sua própria imperfeição e como muitas vezes o processo criativo foge do controle de maneira insustentável, ainda que ecoe eventualmente em nossas memórias.

  9. Vingadores: Guerra Infinita. E por último vem a mega-produção dos estúdios Marvel, que vem fechando uma saga iniciada 10 anos atrás com Homem de Ferro (2008). Juntando os universos de todos seus personagens que habitam um mundo fantasioso onde super-heróis com super-poderes é algo relativamente comum, este é um filme único, pois diferente de outros filmes que encerram uma série, ele encerra várias delas. Quer dizer, encerrar é forçar a barra, já que ele assume de uma vez por todas que não existem mais filmes completos nesse sub-gênero de poderes e magia, mas apenas novos episódios de uma série que tende a continuar para sempre. Se isso é algo promissor ou não veremos, mas é algo inédito até o momento, e experimentos na sétima arte são sempre bem-vindos. Especialmente se outros se dispõem a arriscar centenas de milhões de dólares para isso.

Wanderley Caloni, escrito para Cinemaqui, 2018-12-31 00:00:00 +0000

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