Traídos pelo Desejo

2019-06-23 · 4 · 676

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Vou ser sincero com você, caro leitor. E explícito. Se aguente, são minhas memórias. Quando eu assisti esse filme pela Videoteca da Folha, uma coleção de Fitas VHS lançado aos domingos, eu me lembro claramente de um pintão surgindo na pequena tela de tubo. Não porque foi traumático, nem porque foi excitante, mas principalmente porque este é o momento em que para o personagem de Stephen Rea o futuro perfeito que ele havia imaginado simplesmente virou de cabeça pra baixo.

Mas não se preocupe: este é um filme que fala sobre muitas outras coisas, não apenas do pintão. Há o conflito entre o grupo terrorista IRA e o exército britânico. Há uma insuspeita amizade entre um sequestrador e seu refém. Há um amor impossível de uma forma que transcende todos os clichês de Hollywood.

Esta é uma direção complicada de se fazer, e apenas o próprio roteirista, Neil Jordan (Entrevista com Vampiro) seria capaz de entender sua própria trama ao nível de detalhe de uma mera troca de olhares. É preciso que nossa localização geográfica não seja tão boa, mas ao mesmo tempo saibamos onde estamos, com quem estamos e para onde vamos. Ele mistura o gênero de espionagem e romance, ambos apresentados de uma maneira atrapalhada, para que consigamos encontrar o humor humano não em piadas fáceis de serem digeridas, mas em uma fina ironia onde a ficção vai além da vida real, embora eu quisesse acreditar que tudo isso aconteceu de verdade. E o filme nos entrega essa percepção justamente unindo esses temas.

Veja bem: eu realmente não acredito que uma figura como Fergus possa existir, mas ainda assim Stephen Rea o materializa de tal maneira que é como se ele simplesmente existisse, em carne e osso, pronto para protagonizar uma das histórias mais absurdas que a Escócia já ouviu falar. Ele é um agente do IRA de um grupo que parece formado apenas por amadores, e a frase dita pelo personagem de Forest Whitaker, o soldado Jody, sobre esse povo reforça nosso inconsciente. Mas Fergus, além de amador, é uma alma generosa. Ele cuida do seu refém como se estivesse estreitando laços de amizade. Ele retira o pinto da calça dele para que ele possa mijar. Eu disse pinto? Bom, caro leitor, você já concordou no parágrafo inicial que deixaria eu ser explícito. Tire as crianças da frente da tela e deixe seus pudores para depois.

Enfim, todo esse carinho demonstrado por Fergus é o pano de fundo mais importante de toda a trama, pois através disso percebemos não apenas que este é um homem com princípios humanitários necessários para que o desenvolvimento do segundo ato não pareça forçado. Além disso, é uma dica para entendermos que o bonachão Jody está manipulando o rapaz, da forma com que pode, e também com uma entrega de personagem que apenas atores do calibre de Whitaker. Este pode não ser um filme com um elenco de primeira, mas com certeza é um elenco escolhido a dedo, para cada cena.

E nisso entra a figura de Jaye Davidson como Dil, a cabeleireira e performer do The Metro, um bar de esquina que se tornou icônico para o Cinema graças a essa construção de personagens inusitados em uma história que permeia o realismo através de suas falhas humanas. Dil não poderia ser menos intensa desde o momento que seus olhos encontram o de Fergus, e logo você percebe que nas mãos certas um material desses vira um filme inesquecível para todo o tempo.

Infelizmente não há o pintão nessa edição de DVD; apenas um espaço escuro devidamente censurado para os anos 2000. Mas eu não sou mais um pré-adolescente, então foi fácil para mim detectar desde o começo o que está acontecendo por debaixo dos panos. E sua ausência, importante quando jovem, agora se recompensa pelas diferentes nuances de seus personagens e a devida incompreensão da natureza humana que este filme proporciona. O lindo de tudo isso é que este é um filme que está longe de ser desvendado por completo, não importando quantas vezes você o assista.

The Crying Game (United Kingdom, Japan, 1992). Dirigido por Neil Jordan. Escrito por Neil Jordan. Com Forest Whitaker, Miranda Richardson, Stephen Rea, Adrian Dunbar, Breffni McKenna, Joe Savino. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·