True Detective: Primeira Temporada

2017-11-01 · 4 · 661

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Este é o tipo de série que pode ir de maçante para fascinante, dependendo de quem assiste. Com um roteiro intrincado, sério, sisudo demais, a história contada em oito capítulos segue uma sequência difícil de ser equiparada. Porém, mais do que isso, aqui temos dois personagens em pés de igualdade. Cada um deles é interpretado por um monstro da atuação. Como não amar Matthew McConaughey e Woody Harrelson depois de seus Rus Cohle e Marty Hart? Esta, sim, é uma tarefa difícil.

Como comentei no meu preview sobre a série, o niilismo presente na série é um dos seus melhores aspectos. Ele nos libera para pararmos de pensar em termos do bem contra o mal para nos focarmos naqueles dois detetives e como de tão diferentes que parecem a princípio eles viraram melhores amigos. Mais do que isso: irmãos de sangue por décadas. Isso mesmo com todas as rixas e diferenças no mundo. Nem parece que estou falando isso deles. Mas fica claro desde o começo de seus testemunhos, sentados naquelas cadeiras por boa parte da série. O detetive Marty Hart tem várias ressalvas sobre seu parceiro. Mas sempre faz questão de mencionar: “ele é um bom detetive”. Geralmente ele ressalta isso com as mãos.

Já o detetive Rust Cohle é a figura mais sombria do lado branco da força já vista. No piloto ele já nos oferece a sua visão de mundo: “a consciência humana é um erro da natureza”. Não é possível entender como uma pessoa ainda tão jovem conseguiu realizar todo o arco filosófico e chegar à conclusão que nada importa nessa vida. O seu passado é citado, mas incompreendido. E a série se beneficia em não querer explicar os mínimos detalhes de nada. Eles não sabem, nós não sabemos. Esta não é uma série para ficar anotando, como Cohle faz, um registro de pistas e eventos.

Quero dizer, olhe apenas para esses dois. Woody Harrelson faz aqui um Marty Hart cuja complexidade é difícil de se desvencilhar. Homem de família e com valores, mas mulherengo e violento, Hart é a síntese mais comum da vida dos policiais, que testemunham o absurdo da vida humana na Terra e parecem querer criar uma bolha para proteger sua família. E quando o fazem, criam uma vida própria fora dessa bolha. Hart não é um canalha, e Harrelson faz o possível para deixar claro que é mais complexo que hipocrisia. E o faz com maestria. Entendemos a “inocência” deste homem bruto, simples, e mesmo que ele erre absurdamente, debaixo de sua casca dura ele é um homem comum tentando se locomover no mundo sem um manual da vida.

Já Rust Cohle é o resultado de alguém que não possui um casco duro o suficiente. Foi engolido pela realidade. E Matthew McConaughey foi engolido por esse personagem. No lugar não vemos mais o ator, mas um personagem tenebroso, de olhar e mente obcecadas com algumas poucas coisas e ignorando todo o resto. Quer dizer, pensamos ser isso. Seus anos de vícios descontrolados como um infiltrado o fazem ver coisas todo o momento. Uma pista para a excelente introdução da série (e sua arrepiante trilha sonora, cujo narrador é um psicopata). Cohle consegue se expressar melhor pelas ações, mas quando fala, oh boy, você precisa escutá-lo.

Ambos são peça fundamental para o sucesso da série, sem os quais ela simplesmente não existiria. Apesar da trama complexa conseguir nos chamar atenção, ainda que nos arrastando vagarosamente por quatro décadas, é apenas a presença dos dois que permite que continuemos por todo o caminho. No final, o que mais importou foi entender a dinâmica dos dois. Mais do que a possível resolução de um crime que permaneceu escondido por tanto tempo. Quem liga para isso? Haverão muitos, muitos mais do que esse. A série entende que heroísmos aqui são passageiros, e quase irrelevantes. Ela tenta dar um ar mais otimista em suas últimas palavras, mas convenhamos: o estrago já está feito. Por que somos conscientes?

True Detective (United States, 2014). Com Matthew McConaughey, Colin Farrell, Mahershala Ali, Woody Harrelson, Rachel McAdams, Carmen Ejogo. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · series · Twitter ·