Túmulo dos Vagalumes

Wanderley Caloni, 2021-01-28.

Esse é um filme que me foi apresentado a primeira vez 15 anos atrás como o filme mais triste que eu veria e que choraria litros ao vê-lo. Não chorei, e para falar a verdade não havia entendido muito bem o drama por trás da atmosfera fatalista que cerca este garoto e sua irmãzinha, sobrevivendo os últimos meses da guerra sem qualquer suporte familiar ou comunitário.

Porém, eu "era garoto" na época e não conhecia muitos filmes para ter opinião formada. Era simplesmente um espectador como qualquer outro, ou talvez uma exceção na resposta emocional que a maioria das pessoas têm sobre este filme. Acontece. Filmes, por mais que as pessoas acreditem o contrário a respeito dos seus favoritos, nunca são unanimidade.

Hoje, mais de 1500 filmes vistos e analisados depois, posso dizer com certa propriedade: não entendo essa tristeza e os litros de lágrimas de reação que todos com quem conversei comentam. A única resposta para este mistério seria a simplicidade das emoções com que as pessoas em geral conseguem se conectar com os filmes, ou a amostragem errônea de fãs de animações estritamente japonesas. Talvez quando você consome apenas isso sua vida inteira este seja o filme mais triste de todos.

Mas este é um filme que simplesmente não me incomoda. Um jeito chulo de falar é que não me fede nem cheira. Porém, ele é esteticamente evocativo. Seu jogo de luzes, os enquadramentos, seu realismo por trás das inúmeras camadas de desenhos é perfeccionista e traz certa poesia, principalmente ajudada pela singela trilha sonora, com toques suaves que olham para trás na História com uma certa melancolia que nos escapa tão rápido quanto a curta vida dos vagalumes que Seita captura para deleite noturno, e que talvez por isso o filme insista tanto em tantos momentos parecidos, ao ponto de ficar preso em um ciclo infinito de lamúrios.

Seu diretor é Isao Takahata, que sou fã desde O Conto da Princesa Kaguya, mas, principalmente, depois que descobri o fascinante e subestimado Memórias de Ontem. Takahata tem esse dom de trazer naturalidade em qualquer história. Em Túmulo dos Vagalumes as tomadas de bombardeios com as pessoas correndo e sofrendo é o pano de fundo de sua história, mas o seu valor se encontra em horas menos rebuscadas, quando Seita e Toshio alcançam um momento de paz em suas atribuladas vidas.

A menina é o ponto forte de toda a animação. Ela é realista demais para ser ignorada. Sua dublagem (japonesa) é tão real, ou mais, que qualquer filme em que uma garota com seus cinco anos contracene. Observe seus gestos e verá o que Takahata consegue fazer de melhor (e ele o faz em seus próximos filmes inteiros). Talvez por isso sua história impacte tantas pessoas. Muitos devem ter crianças por perto e isso explica a tristeza inerente. Não se pode fingir como é uma criança do mundo real em um filme: você precisa ter a sensibilidade para traduzir. Túmulo dos Vagalumes o tem, e em todos os momentos. E é por isso que seu final, por mais que já tenha sido revelado logo no começo, é capaz de fixar em nossas memórias sentimentos confusos de perda de alguém que nunca existiu em nossas vidas, mas poderia perfeitamente.

Esse talvez seja o grande poder hipnótico desse filme.

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