Túmulos Sem Nome

Não é nenhum segredo as atrocidades cometidas durante o regime comunista da Cambódia, quando pessoas morriam de fome, doença ou eram sumariamente executadas. O que é inesperado no documentário de Rithy Panh são as consequências nas crenças do povo que sobreviveu.

Eles cultuam a morte dos inúmeros milhares de anônimos para tentar expiar seus possíveis pecados por acreditar em revoluções sob a ideologia da igualdade acima de tudo. E como igualdade é algo que não está nos planos da natureza o homem em sua maldade racional precisa forçar isso, dividindo as pessoas em classes, decidindo como essas pessoas devem viver suas vidas.

As descrições da testemunha principal surgem de uma mente sábia e que viveu muito, demais para a cabeça de qualquer um. Mas ele sobreviveu. Seus relatos são fortíssimos e não recomendado para os corações mais fracos ou pessoas adversas à verdade. Soa como um Arquipélago Gulag versão cambojiana (esta é a obra que analisa mais profundamente o sistema dos campos de trabalho forçados na Ucrânia, pois veio de alguém que sobreviveu a isso).

Ao mesmo tempo acompanhamos os seguidores dos rituais para honrar e procurar os corpos e almas perdidas nesse terrível momento histórico. Através de uma narração em off francesa e tomadas que sobrevoam os campos de trabalho forçado, acompanhamos os rituais e através deles entendemos um pouco mais da cultura local. A parte mais tocante são os bonecos feitos de massa de arroz que são enterrados como os corpos que nunca tiveram esse momento signo. É mais doloroso se lembrarmos que os camponeses não possuíam sequer arroz para se alimentar.

Há momentos na história que transcendem a compreensão humana do que é normal, tanto nas crenças além-vida quanto as terríveis memórias daquele tempo. No ápice do comunismo, relata o sobrevivente, haviam filas de mortos que eram simplesmente empilhados conforme as pessoas morriam, dezenas ao dia. De fato parece que o ser humano se acostuma com tudo, mesmo.

A conclusão do sobrevivente é de culpa e dor por ter sido um revolucionário e lutar por um ideal impossível. Para o espectador que assiste resta a lembrança e o aviso para que, assim como outras tragédias do século 20 como o Holocausto, muito mais lembrado e curiosamente com muito menos mortes que os regimes comunistas da mesma época, que isso não aconteça jamais. É material digno de passar nas escolas, por mais forte que seja.

Wanderley Caloni, escrito para Cinemaqui, 2018-10-26 00:00:00 +0000

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