Um Dia Perfeito

Esse é um filme que pode irritá-lo pela quantidade indiscriminada de músicas animadas (e rock pesado) floreando um drama bem-humorado e mais intenso do que na verdade é. No entanto, ignore isso e terá um ótimo filme que usa o humor para aproximar as pessoas de um drama que existe apenas em países longínquos que vivem em guerra, mas que, se olharmos mais de perto, acharemos algo estranhamente familiar nessas pessoas: elas são tão humanas quanto qualquer um de nós.

O elenco é encabeçado por Benicio Del Toro, que faz Mambrú, chefe de um grupo comunitário de segurança, e que se diverte enquanto realiza mais essa ótima atuação, cheia de trejeitos que remetem tanto à sua incapacidade de lidar com a própria vida quanto à impaciência de nunca conseguir fazer algo pelas vidas que supostamente deveria ajudar.

Fora ele, temos a jovem Sophie (Mélanie Thierry), que é a novata em campo e que serve como nossos olhos para uma realidade já desgastada tanto para Mambrú quanto para seu cínico colega B (Tim Robbins), tanto que esqueceram de vez o caminho de casa. E junto deles, temos o intérprete local Damir (Fedja Stukan), e Katya (Olga Kurylenko), a ex-ficante de missões passadas de Mambrú.

O roteiro adaptado pelo diretor Fernando León de Aranoa e baseado no romance de Paula Farias consegue, apesar dos diálogos iniciais capengas e nada originais, criar momentos entre praticamente todos esses personagens e mais alguns, que estão sempre interagindo para se ajudarem ou se suportarem, e mesmo que isso não fique claro em nenhum desses momentos, o conjunto da obra acaba ficando com essa sensação de um trabalho em equipe muito mais informal do que dentro de todos os protocolos que uma guerra exige.

Além disso, a história é econômica o suficiente para pontuar elementos que adicionam à personalidade dessas pessoas sem soar exagerado, como o costume de Mambrú de dar algo de beber aos seus amigos, como uma maneira de compartilhar algo no lugar de palavras. Note a naturalidade de Del Toro em fazer isso, o seu gesto significando quase que um cachimbo da paz, e verá um grande ator construindo seu personagem.

Da mesma forma, é curioso e engraçado -- e até certo ponto realista -- o pragmatismo de B em seguir mais o seu caderno de anotações empíricas para fugir das minas implantadas do que as centenas de páginas de um guia de conduta em guerra, compilado, de acordo com ele mesmo, por pessoas em Genebra que sequer viram uma mina na vida. Mais admirável, no entanto, é perceber que as minas terrestres são usadas o tempo todo como um grande gancho para a tensão, mas sem nunca apelar para o óbvio.

E se o roteiro e a história são interessantes acima da média, seus temas também não fazem feio. Girando em torno de um grupo de ajuda comunitária e tudo que gira em torno disso -- exércitos, ONU, civis espalhados no meio de todos -- Um Dia Perfeito tem como sua âncora -- quase literal -- o gigantesco corpo de um cadáver jogado em um poço. A urgência em retirá-lo antes que contamine a água e torne a vida dos habitantes mais miserável ainda é o que move a ação, muito embora o que está sendo discutido é mais as loucuras de uma guerra do que a necessidade dos personagens.

E embora essa insistência em soar engraçado e divertido, o mais importante no filme reside em sua mensagem de paz. Ele não fala quem deve ser o responsável por ela, mas quem não deve. Del Toro consegue ajudar duas pessoas em um ato muito mais direto e simples, através da auto-determinação dessas pessoas. Ao contrário do que sua ex afirma, a opinião de um "de menor" não é irrelevante. Pelo menos não quando esse de menor já viveu tempo suficiente em um clima inóspito para saber o que é melhor para si mesmo. E, mais curioso, é que quando Mambrú consegue realmente ajudar alguém é o momento em que está ajudando a si mesmo, a conviver com a impotência dos dias mais longos.

E tudo isso empalidece diante dos últimos segundos do longa, onde a mensagem de superação de uma dificuldade interna sem a ajuda dos que fizeram caso com isso é uma prova cabal de que não são só os inimigos que não tem a mínima ideia do que as pessoas atingidas pela guerra sofrem, mas os amigos, os que tentam ajudar, também não possuem o mínimo senso de como podem ser úteis.

Wanderley Caloni, escrito para ou com a ajuda de Cinemaqui, 2016-07-05 00:00:00 +0000

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