Uma Mente Brilhante

Não lembrava como este filme era tão bom. Ou eu não era bom o suficiente para apreciá-lo. Focado apenas na parte lógica da coisa, não percebi o quão madura e humana é essa abordagem de um matemático brilhante, contemporâneo de todos nós, e ainda vivo, com seu drama pessoal o assombrando.

Russell Crowell está possuído. Podemos falar de tão poucas atuações dessa forma sem soarmos exagerados. Geralmente é um trabalho específico, como Heath Ledger em Batman: O Cavaleiro Das Trevas, quando o personagem Coringa existe a despeito de existir um ator o interpretando. O ator não existe mais, mas o personagem sim, e com força maior. O papel de Crowell em A Beautiful Mind é permitir essa condutividade de alma que acende a chama de um gênio ao vivo e a cores.

Este é um filme por Ron Howard, diretor habituado a farofas como Apollo 13 e se estendendo além do necessário como ao adaptar as obras de Dan Brown. O drama pessoal de um matemático tinha tudo para ser insuportável do ponto de vista de Howard, mas milagrosamente não é o que acontece. Os momentos são precisos. O roteiro humano e maduro ajuda. Ele não nos poupa dos momentos difíceis da vida do matemático John Nash, e é justamente por isso que sua curva dramática não é suavizada e vulnerável como em tantos outros filmes que não conseguem ultrapassar a barreira entre a veneração incondicional e a fase adulta.

O próprio Crowell não nos poupa da personalidade arrogante de Nash, arriscando perder o espectador logo nos primeiros momentos, recriando um personagem da vida real estilo nerd hardcore que mal consegue conversar com seus iguais, pois ele não os considera iguais. Seu desafio no começo é provar que foi merecedor de um prêmio de matemática que o faz entrar na prestigiada faculdade, mas sem frequentar nenhuma aula, e não ter nenhuma ideia revolucionária, Nash está à mercê de ser apenas um espectador de seus colegas.

A trilha sonora de Jamer Horner, que utiliza a vocal de Charlotte Church, na época com seus quinze anos, não martelam esse universo em nossos ouvidos, mas nos convidam a perceber a magia de uma vida que pode ser tão leve quanto conseguir publicar um paper científico, ou tão pesado quanto estar à beira da falência como ser humano.

Esta é uma história que se passa em décadas, e a maquiagem de envelhecimento já denota que este é um filme bem produzido do começo ao fim. Há um certo peso nesta produção que garante uma qualidade inerente em cada cena, cada filtro, cada som. Hollywood está em seu máximo como indústria, na virada do século, provando serem estes os últimos anos em que o Cinema conseguiu realizar algo memorável.

Wanderley Caloni, 2020-04-05 00:00:00 +0000

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