Vocês, Os Vivos

2020-06-07

Gosto de filmes assim. Sobre qual assunto? Sobre a vida. Com e sem sentido. Estamos aqui e é isso. Se fôssemos escolher o gênero que filmaríamos vida óbvio que seria comédia. Woody Allen vem dizendo isso há séculos, e ele tem razão. E agora este filme com produção em seis países vem dizer o mesmo, inclusive com a mesma trilha sonora de Allen, em um trabalho instigante e sem muitas respostas prontas. A única é que tudo isso é irrelevante. Então bora assistir TV.

Tons pastéis eternos, a estranheza dos quadros imutáveis, com a câmera parada. Até um prédio inteiro se move, mas a câmera permanece. Isso é entrega total. Muitos olham para nós. Nós somos os vivos. Eles são fruto da imaginação de um. Eles mesmos estão apenas em um filme, e nos contam, olhando para nós, seus desejos e frustrações disfarçados de sonhos. Não são complicados. É a simplicidade que toma conta da tela e nos ensina que não é preciso muito para viver.

Mas mesmo assim esse psiquiatra do filme nos confessa que trata de pacientes egoístas, egocêntricos e mesquinhos por vinte e sete anos tentando fazê-los felizes. Agora desistiu e se contenta em receitar medicamentos mais fortes. Há muitas bandas e tubas, tambores e trompetes. Se há algo na vida que faz sentido este algo é a música, não a psiquiatria.

Um homem sonha que está em uma festa de uma família que ele não conhece ninguém. Para quebrar a gelo ele faz pela primeira vez em sua vida o truque da toalha com a porcelana da trisavô da família e a destrói completamente. É sentenciado à morte pela cadeira elétrica. “Tinha 200 anos a porcelana”. A sequência vai até o final e os comentários se tornam bizarros pelo incômodo do surreal. “Tente pensar em outra coisa”, sugere o carrasco. Ao final o réu onírico conclui: “que invenção horrível a cadeira elétrica!”

Este é um filme de sensações geradas por montagens estáticas, cuja câmera nunca se move, por orgulho, e pessoas fazendo coisas triviais no dia a dia, mas sempre com algo fora do lugar. Pode ser que nem todas funcionem com você, mas alguma com certeza você se lembrará sem querer daqui a alguns anos. Não é bizarra a vida? Mais do que a TV com certeza.

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