Wall Street Poder e Cobiça

2011-05-23

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Após ganhar o oscar por Platoon, Oliver Stone decide focar suas lentes para sua terra natal e abordar temas em torno do que faz mudar, nós e um país inteiro, a maneira de se enxergar: o dinheiro.

A história se passa coincidentemente um pouco antes dos escândalos dos títulos podres e de informação privilegiada (uma rima da vida real no mínimo interessante, se considerarmos sua continuação após a crise de 2008). Michael Douglas faz seu primeiro papel de mau, deixando os antigos mocinhos da televisão que interpretava para trás. Charlie Sheen, por sua vez, tem a missão de transitar por ambos os extremos da moral, uma tarefa ingrata, se consideramos que terá que disputar atenção com um antagonista tão magnético quanto Gordon Gekko.

Após descrever a selva natural de Platoon, Stone decide filmar a selva de pedra que é Wall Street, onde os mais aptos sobrevivem, e o resto definha. E essa selva é capturada muitas vezes do alto, enxergando a multidão como rebanhos se engalfinhando por um lugar no elevador.

Nessa vida de pequenas disputas por um espaço, alguns tentam mais, ambicionam mais. Como Bud Fox (Sheen), que é o único que vemos sair daquele escritório apertado para procurar algo melhor. Aliás, apertado é apelido. Com seus corredores estreitos, a falta de janelas próximas, um teto baixo que a câmera de Stone captura estrategicamente por um ângulo baixo, e as pilhas de papéis de multiplicando lado a lado, o ambiente onde Fox trabalha mais se parece com um purgatório para os que não conseguiram “vencer na vida”.

Esse é um dos motivos por que impressiona o escritório de Gordon Gekko (Douglas), um megainvestidor assediado pelos menores. Com uma janela grandiosa e espaço livre para se movimentar entre as gigantescas mesas, Gordon Gekko é o personagem futuro de Bud Fox. É, pelo menos, o que ele deseja ser. E, francamente, depois de vermos aqueles corredores apertados onde Fox trabalha, é onde Gekko está que queremos estar: no topo da cadeia alimentar.

Tudo que importa saber sobre dinheiro parece repousar na mesa e nos ombros daquele homem. “Por que estou te ouvindo?", é o que ele pergunta para Bud Fox, que mal consegue se segurar na cadeira onde senta.

A partir daí, o paralelo entre ambas as realidades é primordial para entendermos todo o contexto da trama. Ao entrarmos no universo onde vive Gordon Gekko percebemos um mundo diferente, distorcido do senso comum. Dinheiro, é o elemento que sobra. De forma que ele é gasto em futilidades como quadros pendurados pelas paredes valendo milhões de dólares. Contudo, estamos enxergando o mundo dos ricos não pela ótica de abastados herdeiros, mas por alguém que trilhou o caminho das pedras, o que faz com que até o hobby de colecionar arte se torne uma atividade lucrativa.

A decoração das habitações dos ricos é mostrada de forma irônica, a ponto de fazer uma rima anedótica com a quitinete minúscula onde vive Fox. Possui paredes com tijolos expostos e objetos com partes que faltam. A mesa, incompleta em sua superfície, também tem sua função metafórica: reflete esse sentimento vazio e deformado de uma pessoa que já teria o suficiente para uma boa vida, mas que quer sempre mais. O meio se torna o fim. A cobiça pelo dinheiro é tamanha, que as notas verdes acabam por representar essa mesma cobiça, e o poder que dele emana na mente das pessoas.

O mundo de Wall Street como é retratado poderia ser visto como um documentário sobre a economia do país omde foi filmado, mas, mais do que isso, exibe as entranhas da ambição que existe em cada um de nós. Se enxergamos o filme como um auto-reflexo, a experiência se multiplica, como juros sobre juros. Nossa consciência, que oscila muitas vezes entre a integridade do pai de Bud Fox e o oportunismo de Gordom Gekko. Gekko se torna o pai espiritual de Fox, e, de certa forma, de todos nós que temos um pouco de ambição.

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