Wifi Ralph: Quebrando a Internet

Quem assistir "Wifi Ralph: Quebrando a Internet" pelo título já deve saber que não deverá ver com o mesmo clima do primeiro filme ("Detona Ralph"), que apostava no saudosismo dos fãs de fliperamas e vídeo-games antigos em geral para explorar a magia dos 0s e 1s através dos carismáticos personagens Ralph e Vanellope, entre outros.

Mas não se enganem: é o mesmo filme remodelado para sua segunda protagonista. Se em Detona Ralph o brutamontes que não se sentia bem por nunca ter recebido créditos por fazer parte de um jogo em que ele era um eterno vilão, aqui é Vanellope, com todo seu espírito aventureiro, que se sente em um marasmo eterno correndo três pistas de seu jogo que já sabe de cor.

Tudo muda quando surge A Internet, simbolizada por um roteador Wi-Fi que é plugado na mesma régua de tomadas dos fliperamas. Ah, isso e o fato do volante do jogo de Vanellope ter quebrado e eles precisarem comprar outro no EBay para conseguir com que o jogo não seja desativado. Fica claro que a trupe de roteiristas quer enfiar várias ideias diferentes goela abaixo do espectador sem primeiro mastigá-las direito. E conforme Ralph e Vanellope se aventuram por esse mundo mágico que nunca dorme também veremos que, assim como nossos herois, a história parece seguir um caminho em busca de patrocinadores online (talvez uma jogada metalinguística, mas com certeza uma sacada mercadológica).

O núcleo mais importante da história está na constante insatisfação de seus heróis digitais, personagens criados com apenas o propósito de participar de seus jogos. Quando Vanellope confessa que acredita haver mais no mundo do que apenas uma existência limitada nas regras que estão acostumados a seguir, ela também está olhando para nós, humanos, e nossa eterna insatisfação com nossas vidas. É um momento profundo que flerta sutilmente com a filosofia de nossa própria existência.

Mas logo o apelo ajeitado pela equipe de roteirista gira em torno de algo mais comum em animações: a amizade que se formou entre Ralph e essa pequena, mas indomável garota. Ralph se apegou demais à ideia de ser o herói grandalhão da garotinha em perigo, e isso tem que ser quebrado para que Vanellope consiga ser uma pessoa completa e realizada. Se você ainda não percebeu a tentativa de criticar as décadas de histórias de princesas que a própria Disney desenvolveu, que giravam em torno de um príncipe salvador, espere até chegar em um castelo onde elas ficam gastando seu tempo fofocando e respondendo perguntas de perfil das usuárias de internet.

Há algumas boas ideias ao tentar criar metáforas como os pacotes de internet trafegando pela rede, ou o divertidíssimo sistema de busca que tenta adivinhar, o sistema de spams, etc. Tudo isso parece soar datado assim que aparece no filme, mas ao mesmo tempo é muito bem feito. Note como não existe horizonte na internet; tudo que vemos é um fundo branco (o padrão nas cores dos sites) que parece inalcançável. Os usuários aparecem como versões quadradas que "navegam" por esse hiper-espaço clicando em links.

Porém, no fundo, "Wifi Ralph" é um filme leve, sem maiores atribulações. Ele tem um conflito bem definido, que parece intransponível porque mexe com os sentimentos dos personagens que aprendemos a adorar, e só pelo fato da Disney estar mais interessada em um filme de ideias para crianças do que ação e vilões que surgem convenientemente no segundo ato já é um ponto positivo.

Wanderley Caloni, escrito para Cinemaqui, 2019-01-12 00:00:00 +0000

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