# Nomeie dez sistemas em seu corpo que funcionam sozinhos sem você controlar
2026-07-08 draft [up] [copy]1. O sistema digestivo faz o que tem que fazer da entrada até a saída da comida e você não pode parar o processo exceto na entrada (na saída um pouco, talvez; às vezes, nem isso).
2. A pressão sanguínea é regulada no automático e reage conforme as entradas como almoçar, subir escadas, massagem e injeção.
3. Nós dormimos e quando acordamos nem sabemos se somos a mesma pessoa. As memórias dizem que sim, mas pode ser um implante extraterrestre.
4. Glóbulos brancos e vermelhos combatem ameaças que ignoramos. Em uma alergia ou câncer vão agir contra nosso organismo, mas na maioria das vezes nos mantêm vivos.
5. A regulação térmica é um termostato que ignora suas escolhas: se você sair com uma blusa ridícula no frio ou subir escadas ele vai te obrigar a tremer e suar para equilibrar a temperatura do salão.
# Memórias do Subsolo (Fiódor Dostoiévski)
2026-07-25 clippings [up] [copy]por conta de sua limitação, elas tomam as causas mais próximas e secundárias como se fossem primordiais e, dessa forma, acabam convencidas, de modo mais fácil do que outras pessoas, de que encontraram o fundamento inabalável de sua atividade, e então, pronto, ficam tranquilas; afinal, isso é o mais importante. Como se sabe, para começar a agir, é preciso, antes de tudo, estar perfeitamente tranquilo, e que não reste absolutamente nenhuma dúvida.
Repito, e repito com ênfase: todas as pessoas práticas e de ação, todas elas, são tolas e limitadas porque são pessoas de ação. Como isso se explica? Da seguinte maneira: por conta de sua limitação, elas tomam as causas mais próximas e secundárias como se fossem primordiais e, dessa forma, acabam convencidas, de modo mais fácil do que outras pessoas, de que encontraram o fundamento inabalável de sua atividade, e então, pronto, ficam tranquilas; afinal, isso é o mais importante. Como se sabe, para começar a agir, é preciso, antes de tudo, estar perfeitamente tranquilo, e que não reste absolutamente nenhuma dúvida.
Ah, senhores, afinal, talvez eu me considere uma pessoa inteligente só porque passei toda a vida sem conseguir começar nem terminar coisa alguma.
Sabe, eu, por exemplo, não vou me admirar nem um pouco se, de repente, sem mais nem menos, em meio ao bom senso geral do futuro, surgir um cavalheiro de fisionomia vulgar ou, melhor dizendo, retrógrada e irônica, e declarar a todos nós, com as mãos na cintura: E aí, meus senhores, que tal dar um pontapé em todo esse bom senso de uma vez por todas, para que ele vire pó, e mandar todos esses logaritmos para o diabo, para que assim, mais uma vez, nós possamos viver segundo a nossa liberdade imbecil?
Sua escolha livre, própria, sem constrangimentos, seu capricho pessoal, mesmo o mais desarvorado, sua fantasia, por vezes exasperada até as raias da loucura — é isso que importa e é esse o tal lucro omitido, o tal lucro mais lucrativo que não se encaixa em nenhuma classificação e que sempre manda para o diabo qualquer teoria e qualquer sistema.
o ser humano precisa provar para si mesmo, a todo instante, que ele é um ser humano, e não o pedal de um órgão!
Afinal, se não é para o público, então, eu não poderia apenas recordar tudo em pensamento, sem transpor para o papel? De fato, senhores; mas no papel, não sei por quê, acaba soando mais solene. Dessa forma, há algo de mais convincente, e assim também terei de adotar um critério mais rigoroso comigo mesmo, o estilo sairá ganhando. Além disso, na realidade, talvez eu extraia algum alívio destas anotações.
Por alguma razão, eu acredito que, se eu escrever essa recordação, ela vai acabar se desprendendo de mim. Então, por que não experimentar?
O oficial tinha uns dez verchok de altura;5 já eu sou baixinho e franzino.
No seu último ano em nossa escola, ganhou duzentas almas de herança17
Entre nós, aliás, apesar das fantásticas e palavrosas formas exteriores de honestidade e honra, todos, com bem poucas exceções, chegavam a bajular Zvierkov, e tanto mais bajulavam quanto mais ele se mostrava fanfarrão. E não era em troca de qualquer vantagem que o bajulavam, mas só por ele ser uma pessoa favorecida pelos dons da natureza.
Havia tantas coisas indispensáveis que eles não entendiam, tantos assuntos estimulantes e maravilhosos pelos quais não se interessavam, que, sem querer, comecei a considerá-los inferiores a mim.
O pior era que, na calça, bem no joelho, havia uma enorme mancha amarela. Eu pressentia que só aquela mancha ia me custar nove décimos de minha dignidade pessoal.
Às vezes, com uma dor abissal, venenosa, uma ideia se cravava em meu coração: passariam dez, vinte, quarenta anos e eu, mesmo assim, depois de quarenta anos, iria me lembrar, com repugnância e humilhação, daqueles minutos, os mais sórdidos e os mais ridículos de toda a minha vida.
Eu mesmo começava a sentir aquilo que estava dizendo e fui me empolgando. Eu já estava sôfrego para expor minhas ideiazinhas secretas, cultivadas às escondidas. De repente, algo se inflamou dentro de mim, uma espécie de objetivo “me ocorreu”.
Você nem vai conseguir mais pedir água e, quando lhe derem água, vão praguejar contra você: “Quando é que vai esticar as canelas de uma vez, sua desgraçada; está atrapalhando o sono dos outros, fica gemendo e os fregueses sentem nojo”. É assim mesmo; eu já ouvi essas palavras. Vão pegar você agonizante e meter no canto mais fedorento do porão, mais escuro, mais úmido; estirada lá, sozinha, o que é que você vai poder pensar? Vai morrer, e então mãos estranhas tratarão de arrumar você às pressas, entre resmungos, com impaciência, ninguém vai aparecer para dar uma bênção, ninguém vai dar um suspiro por você, cuidarão apenas de tirar logo esse peso das costas. Vão comprar um caixote qualquer, carregar como carregaram hoje aquela coitada e, depois, vão comemorar na taberna. Dentro da cova, lama, sujeira, neve molhada… não vai ser por você que vão ficar de cerimônia, não é? “Baixa logo ela de uma vez, Vaniukha; que desgraceira, até aqui essazinha fica com as pernas para cima. Puxa direito essas cordas aí, seu moleque.” “Desse jeito já está bom.” “Que bom o quê. Ela está virada de lado. Também era um ser humano, não era? Bom, então deixa assim mesmo, joga logo a terra.” E nem vão querer ficar muito tempo praguejando por sua causa. Vão despejar de uma vez o barro encharcado e azul e voltar logo para a taberna… E esse é o fim da sua memória no mundo; para os outros túmulos, virão os filhos, os pais, os maridos, mas para o seu, nem lágrimas nem soluços nem lembranças, e ninguém, ninguém nunca no mundo inteiro virá à sua sepultura, seu nome vai desparecer da face da terra, como se você nunca tivesse existido ou mesmo nascido!
“Bem, azar, não há de ser nada, pode vir. Hum. Já é detestável o simples fato de Liza ver como eu vivo, por exemplo. Ontem, eu me apresentei diante dela como… um herói… E agora, hum? Aliás, é mesmo detestável que eu tenha me rebaixado tanto. O apartamento está uma verdadeira miséria. E ontem fui ao jantar naqueles trajes! E esse meu sofá encapado de lona encerada, com o estofo que espirra pelos buracos! E meu roupão, que não dá nem para me cobrir! Que farrapos… E ela vai ver tudo isso; e também vai ver o Apollon. Esse animal vai ofender Liza, com certeza. Vai criar caso com ela, só para me fazer uma grosseria. E eu, é claro, vou me acovardar, como de hábito, vou começar a andar para lá e para cá diante dela, em passinhos miúdos, ficarei fechando as abas do meu roupão, vou ficar sorrindo, vou começar a mentir. Ah, que horror! Mas o horror mesmo nem está nisso! Ainda há algo mais importante, mais nojento, mais canalha! Sim, mais canalha! De novo, de novo, vou ter de usar aquela máscara desonesta, mentirosa!…”