# Aconteceu Naquela Noite [link]

2015-11-01 tag_movies ^

Será esta a comédia romântica mãe de todas as comédias românticas? Bom, uma coisa ela é: o exemplo perfeito de como, mesmo se tratando de um sub-gênero maniqueísta, é possível extrair boas histórias e um ótimo elenco em cima do que hoje são clichês mais que consagrados. Alguns já são jurássicos!

Produzida nos anos 30, é conhecido como um dos três filmes que ganhou as cinco principais estatuetas: melhor filme, diretor, roteiro (adaptação), ator e atriz. Os outros dois, espaçados por décadas, foram Um Estranho no Ninho e O Silêncio dos Inocentes. Não que Oscar queira dizer algo, apenas uma curiosidade. Frank Capra também é o diretor das causas humanas, e esse filme discute com certa propriedade a busca da felicidade nas coisas simples.

E a história também é simples: garota mimada filha de pai rico quer se casar com playboy inconsequente, mas é mantida refém em um barco. Até que foge e tentar chegar a Nova York no mesmo ônibus do recém-despedido jornalista que precisa de um furo para se redimir com seu editor. Clark Gable e Claudette Colbert entregam, então, toda sua humanidade e realismo em uma história leve, do estilo "eles se odeiam, mas se amam", mas que a cada acontecimento evoca sua simplicidade e sua verossimilhança com o mundo real. E se a arte imita a vida (ou seria vice-versa?), esse filme é um dos melhores exemplares que retrata esse fato.

Com pouquíssimos momentos datados, é um marco que mesmo quase um século depois, Aconteceu Naquela Noite ainda divirta o público médio e fascine a crítica pelos seus aspectos narrativos tão bem amarrados. Piegas em seu final, é um pecadilho perto de sua proeza em manter o casal principal evoluir bem diante de nossos olhos. É vida transpirando de uma velha fita P&B.

O que parece mover a história é sempre a questão do dinheiro. Estamos na Grande Depressão, e há uma cena com um jovem pobre e sua mãe passando mal de tanta fome. O casal protagonista também precisa economizar, pois algumas desventuras o fazem ter poucos recursos financeiros, mas muitas ideias. O valor de uma certa recompensa adquire um status especial em uma época turbulenta como essa.

Se você não é do tipo que curte filmes "velhos", dê uma chance inconsequente a este velho clássico. Assista como uma curiosidade história, e compare com trabalhos de nossa época. Verá que não lhe falta nada, e tudo que parecer cópia, saiba que este é provavelmente o original (ou mais próximo dele). Uma aula de história do cinema no surgimento das primeiras ComRom.


# Histórias mínimas [link]

2015-11-01 tag_movies ^

Parece um road movie disfarçado, já que todas as cidadezinhas e pessoas envolvidas vivem à beira da estrada. Estamos no interior da Patagônia, Argentina, terra do vinho e da empanada. Um velho senhor nutre a esperança de poder reaver seu velho cão que fugiu diante de um comportamento condenável de seu dono. Uma jovem e humilde mãe é sorteada em um programa de televisão para concorrer a um multiprocessador de alimentos. Um vendedor detalhista e falastrão tenta entregar o bolo perfeito para o filho de seu interesse amoroso.

Juntos, eles irão cavalgar por pequenas aventuras em direção a Julião, a cidade grande das redondezas. O velho é o pilar onde se constrói a história, mas os outros dois servem de apoio para um projeto que se entitula História Mínimas, um longa de Carlos Sorin que tenta focar na humanidade de seus personagens, mas que os enxerga mais como as paisagens que servem de pano de fundo às suas existências do que seres complexos e multifacetados. Dessa forma, o minimalismo em torno das três histórias acaba se sabotando, colocando uma história interessante sob um enfoque superficial.

É certo que existe um romantismo meio nostálgico daquela realidade longe da civilização. O filme é de 2002, mas a história é mais antiga, deve datar da década de 80, 70 quiçá. Os personagens são simpáticos, e os secundários ainda mais, sempre hospitaleiros em uma região desértica que parece já castigada pela natureza. Em determinados momentos os encontros do velho senhor soam até bíblicos, pelo tom bucólico com que seus recém-amigos o tratam. E quem não trataria bem um velho com uma charmosa bengala à beira da estrada?

Já o vendedor, este é uma figura à parte. Encarnado de maneira moderadamente divertida por Javier Lombardo, Roberto é aquela pessoa que acredita em seu eu prestando mais atenção aos objetos em sua volta (como um terno com o botão errado) do que às pessoas. Aliás, podemos dizer que essas pessoas são auxiliadas por outras que dão muito mais valor à observação do próximo do que elas mesmas, obcecadas por seus pequenos Santo Graal.

Com um ritmo um pouco lento, mas sempre em movimento, Histórias Mínimas é para ir degustando aos pouquinhos, mesmo, sem pressa. O desenrolar da história vai impressionar pela sua visão da natureza humana (que é boa), principalmente em uma época em que o cinismo impera nos grandes centros urbanos.


# Que Mal Eu Fiz a Deus? [link]

2015-11-01 tag_movies ^

Essa comédia francesa explora os estereótipos e o racismo de maneira quase inofensiva. No processo, joga algumas piadas de caráter duvidoso, mas em sua maioria oferece uma reflexão boba e superficial a respeito das rixas que as pessoas têm com as outras que tiverem outra origem e cultura.

Será difícil dividir de maneira universal qual piada é hilária, qual é mais ou menos e qual é ofensiva. Tudo depende de como você encara usar estereótipos de raças e povos para fazer graça. Se você for do tipo 100% politicamente correto, evite assisti-lo ao máximo. Porém, se você estiver no outro extremo, este é a comédia para você repensar quando algo é engraçado porque nos sentimos bem ao tirar sarro dos outros por motivos quaisquer, e quando algo não é engraçado porque apenas martela um conhecimento já desgastado ao longo de séculos de gozação.

A história gira em torno de uma família católica francesa do interior com quatro filhas: três já se casaram, com um judeu, um muçulmano e um chinês. A quarta está para se casar com um africano (mas católico!), o que gera reações adversas do pai e da mãe, já esperançosos de finalmente ter um genro que poderiam se orgulhar perante seus vizinhos e sua comunidade religiosa.

Com participações que se divertem imensamente -- o destaque vai para o ator que faz o pai do noivo -- o elenco oscila entre o medíocre e o razoável. As piadas não seguem uma narrativa coesa, e um cachorro que come um prepúcio no começo some durante todo o resto do filme. Não é uma história para se prestar atenção a detalhes, mas gags jogada em torno de um tema em comum. Bom para uma tarde chuvosa com pipoca doce, para se divertir com amigos.


# Igual a Tudo na Vida [link]

2015-11-02 tag_movies ^

Este é um filme típico de um Woody Allen contemporâneo: atores conhecidos em outras comédias (Jason Biggs é o protagonista em American Pie) realizando as personas de Allen como trabalhadores intelectuais e suas crises de relacionamentos enquanto passeiam por Nova York. Porém, diferente dos "bons Woody Allen", este patina sobre um mesmo tema sem levantar qualquer questão mais ou menos interessante, entregando personagens patéticos por si só, sem precisar de nenhuma crise ou complexo grandes o suficiente para tornarem suas vidas amorosas um desastre.

Allen aqui faz o papel de Dobel, um lunático que conhece palavras difíceis e acredita que o anti-semitismo ainda ronda a sociedade onde vive. Ele incentiva Jerry (Biggs) a comprar um fuzil para se defender, além de largar a obsessão de sua vida: a volátil Amanda (Christina Ricci), que depois de um tempo juntos não consegue mais ter relações sexuais com o rapaz, trazendo sua mãe para morar juntos em seu apartamento. Aliado a isso, Jerry tem sérios problemas para largar qualquer relação de parasitismo, onde se encaixa seu vendedor, o bonachão Harvey (Danny DeVito), que mantém Jerry como seu único cliente e só faz analogias no mundo dos escritores de piadas com lojas de roupas.

Competente em sua estrutura, o filme nos faz ficar impacientes pelas voltas intermináveis em torno da mesma questão levantada em meia-hora de filme: Jerry simplesmente não consegue largar as pessoas que o fazem mal, e ao mesmo tempo revemos as loucuras das pessoas em sua volta, que nunca mudam. Quando algo acontece em Igual a Tudo na Vida, percebemos a força interna do roteiro de Allen. Porém, quase nada acontece durante o filme, e os diálogos estão particularmente sem sal. Até um acesso de fúria de Dobel é usado apenas para manter a loucura no ar, sem maiores implicações. Os passeios pelo Central Park são inócuos, pois assim como seus caminhos, não levam a lugar algum.


# A Fortuna de Ned [link]

2015-11-06 tag_movies ^

Se eu fosse um crítico de prestígio lá pelos idos de 1998, seria o primeiro a defender o filme estreante do diretor/roteirista Kirk Jones, que depois dirigiu os mais famosos "Nanny McPhee, a Babá Encantada" e Estão Todos Bem. A Fortuna de Ned é um filme de baixa produção, com uma única trilha sonora e 55 atores que interpretam um pequeno vilarejo isolado na poética Irlanda.

O narrador inicial fala sobre a loteria, como todos esperam os números sorteados, e como isso muda a vida dos ganhadores. Em seguida vemos uma sequência que resume tanto o humor negro do filme, mas, principalmente, a moral de seus idealizadores: o velho Jackie (Ian Bannen) está sentado em sua poltrona conferindo pela TV os números sorteados naquele momento. Ele quer que sua mulher traga torta para a sala, portanto, faz a coisa mais compreensível: finge que está acertando os números para lhe chamar a atenção. Conclusão: a torta chegou mais rápido na sala.

Iniciando de maneira meio torta a busca pelo verdadeiro ganhador, que sabe-se que é do mesmo vilarejo onde Jackie mora, ele e seu simpático amigo Michael (David Kelly) saem por aí bajulando qualquer novo suspeito, até realizarem uma festa com todos os habitantes do local e darem pela falta do Ned do título, que preferiu ficar em casa: morto, segurando seu bilhete premiado.

A tentativa de conseguir sacar a pequena fortuna dá fruto a pelo menos dois momentos icônicos: o discurso breve e intenso de Jackie durante um funeral, e a sequência de um acidente de carro que podemos chamar de licença poética para o humor negro britânico se revelar em todas as suas cores. Permeando uma direção quase televisiva, A Fortuna de Ned se beneficia por conseguir pegar uma história simples e alavancá-la até suas últimas consequências, e no meio do caminho permear a vida e a riqueza pessoal que a interação entre as pessoas proporciona.


# Homem-Formiga [link]

2015-11-07 tag_movies ^

Mês passado, enquanto trabalhava em meu escritório em casa, um pequeno grilo pulou da janela para do lado de minha mesa. Ele "averiguou" o local e ficou no ponto mais alto do recinto: o suporte fechado de minha câmera. Passados três dias, resolvi alimentá-lo com um pedaço de folha de alface e uma uva. Logo foram folhas do manjericão e salsinha, direto dos meus vasos do quintal. Quando ele ia passear em torno do aquecedor, fui aos poucos abrindo o suporte onde ele ficava até atingir quase a altura do parapeito da janela, no que ele voltava a escalá-lo, sempre permanecendo parado por longas horas no seu ponto mais alto.

Até que um dia preparei o segurador do suporte para apontar diretamente para a janela, quando ele finalmente colocou seu plano em ação: deu um salto "gigantesco" para fora, permanecendo um tempo no terraço, mas logo desaparecendo para sempre.

Essas duas semanas com esse grilo me ensinou a prestar mais atenção ao mundo microscópico que existe em volta de nós, mamíferos de tamanho médio. Há toda uma fauna e flora bem debaixo de nossos narizes, com sua lógica e instinto próprios. Não se pode chamar um grilo de "fofinho", mas se pode perceber beleza no mecanismo mais simples da vida em ação.

Dessa forma, mesmo que o filme da Marvel ultrapasse vários limites do razoável tentando vender a ideia de um homem que possa encolher e esticar rapidamente através do uso de uma roupa especial e comandar diferentes tipos de formigas que surgem instantaneamente onde quer que ele precise e sincronizem ações impossíveis, a ideia de enxergar as coisas por um outro ângulo se encaixa perfeitamente na proposta do diretor Peyton Reed (do ótimo Separados pelo Casamento), que une um furtivo ladrão que tenta se recuperar de sua vida de crimes e se tornar o herói que sua pequena filha tem como certo, a relação ressentida entre outro pai e sua filha que tentam reconstruir um sonho após a morte dramática de sua mãe, e um vilão cartunesco que evoca os poderes do mal que a produtora marca Stan Lee tanto tenta ridicularizar apenas como fonte de tensão para o seu pouco atento espectador.

Com efeitos digitais que funcionam bem pela velocidade das cenas de ação e pela fotografia onírica e escura de Russell Carpenter (Titanic, True Lies), a história escrita por um batalhão de roteiristas que começam já pela origem nos gibis possui toques de humor já conhecidos dos fãs de filmes de super-herói, onde a melhor sacada é "esse é um cachorro muito estranho" (na verdade, é uma formiga gigante). Protagonizado por Paul Rudd, que também participa do roteiro e da produção, o elenco é afiado, embora não brilhante, e contém pelo menos uma estrela significativa: Michael Douglas, que mantém sua boa forma de "Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme" em um trabalho bem menos ambicioso (é um filme de super-herói sem muitos respaldos na realidade, lembra?), mas que tenta a todo momento usar seus personagens como âncoras emocionais, mesmo que não passem de estereótipos bem conduzidos.

Referenciando sempre a fonte de dinheiro da produtora, com seus Vingadores e a dúzia de filmes e as centenas de milhões que isso representa, Homem-Formiga já chega fazendo parte honorária do já famigerado "projeto Vingadores", citando a S.H.I.E.L.D. (que já possui série própria) e a Hydra (Capitão-América, 2011), o bem e o mal cartunizados para o deleite do fã de embates binários.

Infelizmente, todo esse ímpeto em referenciar figuras do universo Marvel ganha contornos muito pálidos quando o filme tenta se encaixar no atual momento que vive o mundo, fazendo de Scott Lang um pretenso herói por se vingar de uma empresa gananciosa que enganou um monte de gente (ecos da crise de 2008), e literalmente encolhendo uma outra companhia dona de uma ideia de dezenas ou centenas de bilhões. A discussão de patentes sequer é citada, mas é o grande vilão do filme. Siga a vilania: 1) a companhia fundada pelo Dr. Hank Pym (Douglas) conduzida por caminhos obscuros pelo cruel Darren Cross (Corey Stoll) sacrifica ovelhinhas; 2) quem patentear um mecanismo de alteração de tamanho molecular da matéria se tornará dono do mundo; 3) mesmo inventado há muito tempo no porão de um velho senhor, quem patenteia essas coisas é o grande ganhador do mundo inescrupuloso que vivemos.

Portanto, ignorar o subtexto mais interessante para se render em seu terceiro ato para o velho duelo de um super-herói vs super-vilão é voltar para o próprio ano da crise, 2008, quando um Homem de Ferro ainda jovem estragava seu terceiro ato com um duelo idêntico e com razões completamente alheias à trama do filme. Ainda assim, para os que desejam se divertir com esse velho esquema, Homem-Formiga pode ser traduzido como uma "sessão da tarde" com ótimos efeitos e boas piadas.

Para os mais exigentes, não adianta o quanto a Marvel tente dourar sua pílula de bilhões. Enquanto ela repetir sua velha fórmula cartunesca dúzias e dúzias de vezes, seus filmes serão medíocres dúzias e dúzias de vezes mais. Aqui não importa a escala. Tanto formigas quanto humanos no universo Marvel parecem nunca poder ser chamados de "fofinhos", pois não há muitas emoções em jogo. Eu, por outro lado, ainda me lembro do meu amigo grilo. Espero que esteja bem nesse mundo verdadeiramente selvagem lá fora.


# Dulce Gosto Buongiorno

2015-11-08 tag_food ^

Um espresso simples, sem muita frescura; mais encorpado que o normal e menos amargo. Coado Amargo como o espresso, mas mais fraco e com um gostinho de água suja.


# Caá Yari

2015-11-09 tag_beer ^

Doce com o amargor característico de uma Belgian Blonde Ale.


# 007 Contra Spectre [link]

2015-11-14 tag_movies ^

Spectre é tão bom ou tão ruim quanto Quantum of Solace, mas por motivos opostos. Enquanto na segunda aventura de Daniel Craig como James Bond a complexidade do roteiro piorava uma experiência que já se repetiu em mais de vinte filmes, dessa vez a sua simplicidade quase infantil gera uma decepção crescente a cada minuto que se passa na projeção.

Tentando resgatar a visão clássica do agente, uma continuação óbvia do excelente arco visto em Skyfall, o roteiro escrito por um batalhão de pessoas (nunca um bom sinal) tenta se sair bem apenas repetindo cenas e situações dos Bonds anteriores, como uma espécie de homenagem no formato de passeio de museu, sem se preocupar em estabelecer uma trama com personagens minimamente interessantes.

Com quase nenhum diálogo marcante ou situação memorável (as duas únicas exceções talvez sejam a pequena conversa com um ratinho e um "comece logo, pois a pior tortura é ouvir você falar"), os personagens secundários de 007 sempre são estereótipos, mas costumam se beneficiar do caricato para serem lembrados pelo exagero, embora suas motivações possam ser intuídas pelo espectador. Isso costuma funcionar muito bem com os vilões, como o fanático Silva (Javier Barden) ou o obcecado Le Chiffre (Mads Mikkelsen) e as mocinhas, quase sempre marcadas pelas suas virtudes físicas e pelas atitudes chauvinistas de Bond em torno delas. Aqui a graça se perde completamente com a insossa viúva Monica Bellucci e a pseudo-misteriosa-atrevida-independente Léa Seydoux (Madeleine Swann), que não só não conseguem convencer como conseguem atrair o agente como o próprio 007 parece agir no piloto automático. Talvez essa seja a definição "bondiana" de sex-machine.

E se isso já seria grave nos romances temporários com as Bond Girls, que servem como uma diversão de passagem pela história, isso se torna imperdoável quando acontece com os vilões, e em específico esse vilão, que representa não apenas mais um antagonista megalomaníaco, mas um ponto crucial na vida pessoal de Bond. Mesmo interpretado pelo sempre competente Christoph Waltz, o baixinho amalucado Blofeld se torna uma versão não-engraçada de Dr. Evil, a caricatura criada pela paródia desses filmes em Austin Powers. Aparentemente os idealizadores do filme não relacionaram que Dr. Evil já faz parte da cultura pop, pois sequer o figurino de Blofeld difere em muito do estereótipo de Dr. Maluco. Aparentemente, não... é certeza. Do contrário, não colocariam Waltz limpando neuroticamente seu terno. Se esqueceram apenas da criação de tubarões no subsolo.

Mas falando ainda do roteiro, as situações que são montadas para estabelecer alguma tensão chegam a ser risíveis. Se em dado momento Madeleine Swann se despede, esse ato se transforma não apenas em um absurdo pela situação que a liga ao agente, que prometeu protegê-la, mas também em uma jogada maniqueísta totalmente previsível desses filmes: qual será o destino da "bela dama sozinha em uma noite escura em Londres"? E por falar em previsível, até mesmo a insistente necessidade de explodir por completo qualquer construção em que 007 acerte alguns tiros empalidece frente ao gancho ridículo do prédio que no começo do filme é apontado por M, que comenta casualmente que ele deverá ser demolido. Mais uma vez, o espectador está anos luz à frente do próprio roteiro e sabe que o prédio será palco do terceiro ato do filme (e adivinha o que acontecerá com ele?)

Aliado a todas essas falhas de roteiro que chega a prejudicar em muito a construção dos personagens, é quase bater em cachorro morto falar mal das atuações dos atores, vítimas da superficialidade de seus personagens desde o papel. Se Christoph Waltz não consegue o mesmo desempenho de filmes como Django Livre ou Bastardos Inglórios, se trata mais de terem lhe entregado um roteiro mais para "Como Água para Elefantes" piorado do que sua própria desenvoltura no "palco". Mesmo assim, convenhamos: que ator se dá ao luxo de fazer gestos ridículos com os ombros e falar com um tom idiota todo o momento sem entender que seu personagem ainda não realizou nenhuma ação que justificasse esse possível medo que os mocinhos teriam dele.

Tendo apenas pontas bem desempenhadas por Ralph Fiennes e Ben Whishaw, que realizam seus costumeiros M e Q, até Daniel Craig pisou na bola em seu quarto filme, desempenhando um 007 no automático que não consegue se desvencilhar da maior falha em filmes de ação da década: a invulnerabilidade dos seus personagens. Se em Cassino Royale o realismo das lutas e das situações de risco elevavam sua posição de herói, aqui a facilidade com que ele atinge inimigos a dezenas de metros, muitas vezes com uma pistola, não é invejável: é inacreditável demais para fazer sentido. (E ainda assim, acostumados com um 007 especialista em matar, ele permitir que o vilão forte do filme sobreviva a tantos embates é inaceitável, já que nem atirar no sujeito a cinco metros de distância aparentemente ele não conseguiu fazer direito.)

Mesmo nos aspectos periféricos, como a música, e já sabendo de antemão que nenhuma música-tema conseguiria se igualar tão cedo ao feito de Adele em Skyfall, o pior em Spectre é mesmo sua trilha sonora, conduzida por Thomas Newman em infinitos temas da música-tema de toda a série. Uma vez que a ouvimos em Skyfall no arco já citado, agora ela se banaliza por toda a aventura, virando mais um tema de jogo de vídeogame.

E por fim, se há um grande culpado a apontar pelo quase desastre no quarto filme de Daniel Craig, este é o diretor, Sam Mendes, em seu segundo filme e que não consegue sequer realizar a sequência inicial de maneira competente (onde os figurantes mecanicamente se movem na frente da câmera), além de se perder em quadros que misturam contra-luz com mistério sem motivo algum (a exceção seria talvez a reunião da Spectre). Com a desajuda de seu editor, Lee Smith, juntos eles realizam uma experiência focada em episódios, que soa mais como parte de um seriado chamado "007 por Daniel Craig", que teve um início excelente, é verdade, mas que aos poucos virou apenas um chamariz para novos filmes. Depois desse episódio, eu acredito que já é tempo dessa temporada acabar e voltarmos para o bom e velho Cinema, onde um homem se diverte sendo torturado pelos seus órgãos genitais, e isso revela seu passado, sua essência e ainda é engraçado. Que declínio esse James Bond teve...


# Como ser um hacker

2015-11-18 ^

Talvez as pessoas estejam com preguiça de ler. Talvez estejam apenas inundadas por tanta informação que temos hoje. Talvez seja apenas falta de foco pelas interrupções consecutivas de novos "espertofones" ou nossas redes sociais viciantes, pois oferecem muito a troco de nada.

O fato é: se você precisa perguntar para alguém (no caso, eu) o que é preciso fazer para se tornar um hacker, algo como um guia passo-a-passo, eu vou encarar o desafio numa boa, pensar por alguns dias, semanas e talvez meses, e chegar à conclusão que a pessoa que precisa que alguém lhe ensine está percorrendo o caminho errado. Ela nunca vai aprender o suficiente para se tornar algo que possa ser chamado de hacker.

E o que é hacker, que mal lhe pergunte? Há uma definição curta e simplista, há a definição do botão (que eu nunca mais vou me esquecer) e há o Jargon. O que é o Jargon? É um guia dos primórdios da web que contém tudo que você precisa saber sobre o jargão hacker. Duvida? Leia ele primeiro.

Falar em jargão me faz lembrar do nostálgico e muito curioso (e que já falei em outros artigos) Barata Elétrica, o fanzine jurássico de Derneval Ribeiro que consistia em copy&paste de partes interessantes da rede, em inglês e português, e um pouco da cultura hacker na América do Sul (sobretudo Buenos Aires) e sobre a vivência de seu editor no ambiente uspiano. Derneval pode até não ser um "hacker de verdade" (só pra citar a falácia do escocês), mas ler o Barata Elétrica me deu não conhecimentos técnicos, mas muito sobre a nossa era da informação, como informação é vital hoje em dia, além de outros conceitos interessantes que nos fazem ficar atentos para privacidade, governos, política, economia, filosofia, etc. Acho que foi lá a primeira vez que tive contato com 1984, PGP, Mitnick. Enfim, curiosidade, piadas e um pouco do clima social que a web tinha (para mais disso, nada como saudoso mIRC...).

Para quem pretende se tornar um hacker, já deve ficar claro que não existe receita de bolo, nem lista de conhecimentos desejáveis. Isso não e uma vaga para preenchimento de currículo. Isso é a vida real. Se existe uma receita, ela é vaga e de auto-ajuda:

1. Primeiro você aprende a gostar de viver de acordo com a definição abaixo.
2. Viver é a busca incessante de conhecimento em todas as suas formas, uma autodescoberta e a busca da felicidade pessoal e instransferível, subjetiva e inalienável.
3. Com base nisso, comece a aprender profundamente sobre tudo o que deseja, em todas as áreas, sobre qualquer assunto, pessoa, lugar.
4. Repita o passo anterior até que a inescapável morte aconteça; o resto é mistério.

Parece meio poético e filosófico, mas não é. Se eu te disser que para ser hacker precisa aprende a crackear programas no Windows, fuçar no WinDbg e esmiuçar a API Win32, disassemblar códigos em binário com o IDA e usar no percurso todas as ferramentas, sistemas operacionais, linguagens de programação e conhecimentos periférios necessários, vai ser apenas uma descrição pessoal que não te levará à satisfação que talvez você deseja nessa jornada. Se sua única satisfação será poder dizer que é um hacker, sinto muito, isso é inútil. Você não está procurando viver por si mesmo, mas se auto-promover sem conhecimento de causa do que realmente a palavra significa. Esqueça o assunto e vá ler um livro. Ou melhor dizendo, vá navegar em sua rede social favorita...


# Jogos Famintos [link]

2015-11-18 tag_movies ^

Das paródias, talvez seja um dos poucos que segue boa parte do roteiro, ou pelo menos da história original. Sendo assim, se torna um filme até que simpático, pois pega carona em uma boa narrativa (a do original), além de nostalgicamente remeter aos bons momentos do primeiro filme da franquia baseada em livros.

Com defeitos especiais que são risíveis em um primeiro momento, depois fica fácil se acostumar, embora quase nenhum deles funcione, pois são mal feitos e duram muito tempo na tela, diferente de vídeos semelhantes na internet (entre eles o ótimo Kung Fury). Os pontos positivos diferentes do conteúdo original ficam todos por conta de como é deturpada a visão já no estilo paródia de uma história que tenta criticar programas televisivos no estilo reality show. Aqui toda a trama é revelada e analisada direto no texto, e onde se perde sutileza se ganha em comédia gráfica e escrachada, como nos momentos que o jogo é paralisado para os comentaristas observarem uma cena -- como a morte pelos testículos, um ponto alto -- ou durante a hilária pausa do primeiro tempo.

A atuação da menina principal (Maiara Walsh, igualmente linda) é uma cópia ambulante de feições de Jennifer Lawrence, o que não deixa de ser curioso nos momentos que JenLaw não protagonizou em Jogos Vorazes. O uso de tantos figurantes quase que impressiona, já que sabemos que está é uma produção de baixo orçamento.

Por fim, Jogos Famintos é uma prova que reality shows realmente chamam a atenção do público e podem render momentos curiosos e interessantes, mesmo que tudo não passe de uma farsa de uma farsa, e que no final tenhamos que suportar o velho clichê das cenas erradas. Até aqui isso funciona razoavelmente bem.


# Alpasión Malbec 2012

2015-11-22 tag_food ^

No começo alcóolico; passando uma hora, além de aromático, sedoso, e com um amargor intenso, mas breve. No final, menos alcóolico, mais tânico.


# Jogos Vorazes: A Esperança - O Final [link]

2015-11-22 tag_movies ^

Se pudesse resumir com uma palavra não apenas a parte final, mas a saga de quatro filmes baseados nos livros de Suzanne Collins, eu diria que "corajoso" é uma escolha interessante, embora incompleta. Ser corajoso brincando com a noção de poder estatal hoje em dia parece ser chover no molhado, mas é preciso lembrar que o último livro foi lançado em 2010, e em cinco anos muitos detalhes do jogo político do livro foram apreendidos por jovens leitores, além de ser intensificado o debate nas correntes underground desse tipo de discussão. Sim, ser corajoso pertence à lista de motivações literárias de Collins, mas mais do que isso, entender as mudanças em torno da crise de 2008 e se debruçar como realmente funciona o jogo político há milhares de anos é o que torna Jogos Vorazes: a Coleção, como um guia completo de como o governo engana todos seus súditos pelo poder eterno de exploração.

Mais uma vez dirigido pelo competente Francis Lawrence, o roteiro Peter Craig e Danny Strong feito em cima da adaptação da própria Collins parece gritar aos quatro ventos que todos os peões envolvidos na batalha final são exatamente o que são, e que seus símbolos de coragem e rebeldia são peões pintados de dourado. O próprio dourado do símbolo do Tordo aqui parece apropriado, assim como é apropriado que o "traidor" Peeta fira Katniss justamente em sua garganta, afetando temporariamente sua capacidade de falar, a primeira cena dessa segunda parte.

Acertadamente se concentrando mais nos diálogos e usando a ação como catalisador disso tudo, "Jogos Vorazes - O Final" se torna realmente corajoso em apostar em um ritmo muito mais lento que os seus anteriores, mas com a vantagem de soar infinitamente mais ambicioso em suas pretensões alegóricas. Se você espera uma batalha grandiosa, não entre na sala de cinema, a não ser que essa batalha que espera esteja na mente de seus idealizadores. Quase roubando a cena está o jogo de cena que se desenvolve fora dos campos de batalha, entre a ambiguidade dos atos e a necessidade de acreditarmos em um lado para poder lutar.

Tecnicamente irrepreensível -- se você perdoar o uso excessivo de efeitos digitais -- o filme continua mantendo o tom fantasioso e ao mesmo tempo realista de Panem. Dessa forma, as estratégias dos rebeldes para avançar em direção à Capital é sóbria, e irá lembrar momentos pontuais de obras mais ambiciosas como Senhor dos Anéis, Star Wars e até mesmo Matrix: Revolution. Porém, como já disse, o campo de batalha mais interessante está, como sempre, no marketing, e esse existe ferozmente em tempos de guerra. Ainda que seja pouco visto de baixo, os melhores momentos passam nas pequenas telas em torno dos escombros das cidades, ainda exibindo as transmissões de governantes e inimigos.

Não espere muita ação em Jogos Vorazes: o Final, mas quando ele acontece, choca e convence. Pior do que isso, porém, é a "batalha" final, com um clímax que choca tanto que fica difícil acreditar qual dos lados tomaria uma decisão dessas. A direção de Lawrence é importante justamente nesses longos segundos, onde bombas, confusão e tiros se confundem em uma multidão tentando se salvar. A câmera em punho mantém um clima de desorientação extremamente eficaz. As cores drenadas das vestes dos habitantes da Capital simbolizam a quase-miséria que Panem se transformou.

Concluindo com chave de ouro uma saga que tinha tudo para se transformar em um romance bobo que envolve um trio amoroso (estou olhando para você, "saga" Crepúsculo), essa é uma franquia, assim como seu último roteiro, marcada para vencer. Sua materialização em forma audio-visual apenas deve ressaltar o interesse de cinéfilos-leitores de ler a obra original. Mas como cinéfilo apenas, é uma obra inestimável para os tempos atuais, não tão sombrios como em Panem, mas com ideias tão horríveis quanto as ideias de seus governantes, especialistas em marketing, psicopatas disfarçados de vontade divina (ou democrática).


# Missão: Impossível - Nação Secreta [link]

2015-11-22 tag_movies ^

É brilhante e até comovente perceber como o gênero de espionagem moderna que corre nas veias dessa franquia se atualiza a cada novo trabalho, e como "Rogue Nation" se sai infinitamente melhor que o último James Bond de Daniel Craig ("Spectre"). Mesmo em momentos óbvios como a "missão impossível" tradicional o filme consegue manter a tensão e sua eficácia, marca de um filme verdadeiramente competente em seu gênero: quando sabemos o que vai acontecer, e mesmo assim funciona maravilhosamente bem.

Roteirista de Os Suspeitos (o pequeno clássico de 96), Christopher McQuarrie participou pontualmente em alguns trabalhos no Cinema como autor e diretor, muitos deles atualmente com Tom Cruise. Sua participação, portanto, no próximo filme da franquia Missão Impossível é tão natural quanto inevitável. Tendo Cruise também como produtor executivo, essa é uma sequência de filmes tratada com esmero desde sua fundação, e que conteve diferentes visões em seus quase 20 anos de história, sempre dirigidos por nomes interessantes: Brian De Palma, John Woo, J.J. Abrams e Brad Bird.

E quando falo esmero me refiro a praticamente todo aspecto técnico da produção. Como uma trilha sonora que sabe escolher quando usar música-tema, mesmo que seja para fazer gozação (quando Tom Cruise tenta passar por cima de um carro após uma experiência de quase-morte), além de usar a eficiente sequência da ópera (algo tradicional na série e em filmes do gênero) em momentos mais reflexivos. Mais ainda, omite qualquer música artificial quanto entende que apenas som dos carros e motos em uma perseguição é o suficiente para manter a tensão em alta.

E o que dizer da montagem, que nas mãos do excelente Eddie Hamilton (X-Men: Primeira Classe, Kick-Ass, Kingsman), transforma uma série de situações, cenários, ações paralelas e lutas em momentos de puro deleite visual pela sua fluidez e cadência exemplares.

Tudo isso auxilia em muito uma trama até que complexa, mas que dá sempre ao espectador informações suficientes para que ele acompanhe a linha de raciocínio por fora do que os personagens sabem até o momento. A história se preocupa menos em soar esperta e mais em soar autêntica. Até a velha questão de sempre haver um novo vilão, e tudo ser uma repetição inesgotável, é uma forma de apontar o dedo para si mesmo de maneira a parar a ação e questionar os próprios atos. E o quão libertário é um filme que contêm uma fala que diz que tanto faz o governo ou facção, tudo são apenas escolhas do que acreditar?

As atuações, mesmo as mais breves, são pertinentes e divertidas. Todas as pontas funcionam. Até um "hum" do veterano Ving Rhames é infinitamente mais significativo que uma frase que verbalize a ameaça caso alguém traia sua confiança. A parceria entre Cruise e Simon Pegg funciona em seu máximo, e mesmo que Pegg se mostre repetitivo em seus trejeitos em certo momento, as melhores tiradas de humor, as observações ingênuas de seu personagem e mesmo sua lealdade incondicional ao amigo são tocantes na medida certa.

Por fim, o arco final amarra tudo de uma maneira menos episódica e mais argumentativa. "Rogue Nation" consegue justificar a existência de "medidas desesperadas" sem parecer aliar-se a governos e corporações, mas antes como defesa de "vidas inocentes". Pode não ser o mais honesto dos argumentos, mas é o mais forte que a franquia consegue chegar em tempos onde o estado perde a razão em nome de uma paz que ele parece sempre tornar inalcançável, e em que a transparência atual (graças à internet) torna cada vez mais gritante a parceria imoral entre dinheiro e poder.


# Tomorrowland: Um Lugar Onde Nada é Impossível [link]

2015-11-23 tag_movies ^

Um "A Corrente do Bem" atualizado a nível tecnológico, inserido em uma aventura onde pessoas voam, coisas voam e a NASA é uma expansão da Disney. Ou seria o contrário?

Tomorrowland só não é um filme Sessão da Tarde graças ao toque mágico de Brad Bird (Os Incríveis, Ratatouille), que consegue pegar uma aventura insossa como essa e torná-la em algo divertido, que parece conter mais do que o simplório roteiro que escreveu com Damon Lindelof (Guerra Mundial Z, Prometheus), onde o futuro da humanidade está ameaçado, mas ao mesmo tempo seus gênios criaram um lugar onde tudo é possível (em que tudo se resume basicamente em voar e flutuar em diferentes versões). Com a ajuda dos visionários (que antes seriam apenas nerds) Frank Walker (George Clooney) e Casey Newton (nossa, como eles são originais nos nomes dos personagens!), talvez ainda haja esperança.

Com uma direção de arte que brinca a todo o momento com a animação -- e onde os robôs do mal possuem um sorriso a la universo Roger Rabbit ou Máscara -- Tomorrowland prefere jogar sensações na frente do seu público e piadas bem humoradas enquanto tenta adiar para sempre sua trama principal. Como resultado temos uma ótima diversão com pouca reflexão. Bom, a não ser que você ache super-genial a velha cartilha do "estamos destruindo o mundo, precisamos dar-nos as mãos" atual, originário dos desavisados do movimento Ocupy Wall Street e que agora gera mais e mais movimentos "nonsense" em volta do globo (seriam eles a causa do fim dos tempos?).

Mesmo assim, boa parte do filme funciona graças à nossa curiosidade mórbida em busca de soluções para este mundo fantástico. Seria uma viagem no tempo? Mas isso não geraria paradoxos temporais? Ou seriam alienígenas infiltrados como em MIB? Talvez fosse uma mistura de tudo isso junto... e a maior parte do tempo todas essas divagações funcionam, com uma ajuda de um elenco de atores afiados.

Com atuações inspiradas de Clooney e da simpática e divertida Britt Robertson, além da mais que especial performance da robótica Raffey Cassidy, o filme consegue fazer-nos ficar metade interessados nessas pessoas e a outra metade curiosos pela história que os une. No meio de tudo isso, tentamos descobrir sobre o que diz esse mundo fantástico. Talvez a maior virtude do seu roteiro seja esconder isso ao máximo, revelando aos poucos que não se trata apenas de uma versão futurista de Orlando, mas de uma gigantesca campanha de product placement (pelo jeito a crise unicamente brasileira já anda diminuindo o número de turistas na Flórida).

Recheado de efeitos digitais que impressionam graças aos movimentos graciosos que Bird desempenha em toda a história, Tomorrowland pode até ser chamada de Sessão da Tarde, pois merece o título pela sua história nada original. Porém, pela sua realização, este filme está contido em uma dimensão apartada da nossa realidade mesquinha e cruel. Pena que o que temos para hoje se chama realidade.


# A Mosca da Cabeça Branca [link]

2015-11-28 tag_movies ^

"The Fly" cria uma sensação de deslumbramento e fascinação pelo horror da possibilidade de acontecer na vida real o que vemos no filme. E o que vemos não é muito, e seus efeitos são irregulares. Porém, ao apostar no circunstancial em vez do puro deleite visual e gráfico, a obra não-datada da década de 50 mantém sua força dramática e a capacidade de fazer espectadores ainda hoje se pegarem pensando em como tudo isso é surreal, horrível e... fascinante.

Seus personagens são tão críveis quanto incríveis. Um casal de uma família financeiramente confortável, o marido é um cientista que solitariamente realiza experimentos que desafiam os limites da ciência no conforto do porão de sua casa. Excêntrico por natureza, sua mulher o apoia, e seu pequeno filho mostra sinais de uma inteligência pura também se desenvolvendo ao máximo, o que é adorável. O irmão do cientista é apaixonado pela cunhada, e em uma noite fatídica recebe uma ligação dela dizendo para ele que o assassinou em uma prensa industrial.

O desenrolar inicial do filme se aproveita de seu enredo para criar um mistério igualmente excêntrico. Uma mulher confessando o assassinato e se sentindo aliviada, mas que se mantém atenta para as moscas que voam em sua casa. Nada faz sentido até que finalmente voltamos no tempo e a história é contada em seus detalhes essenciais. Nada no filme se perde, e tudo aos poucos vai fazendo sentido, mas um sentido ainda muito estranho.

O realismo com que uma máquina de teleporte é descrita e os experimentos cada vez mais ousados de seu inventor se torna a síntese da curiosidade mórbida humana. A fotografia do filme é sóbria com cores que lembram ficção científica, mas as sombras e a trilha sonora flertam com o horror (e como não?).

Talvez nossas cabeças não estejam prontas para aberrações da natureza criadas por seres racionais (no caso, nós), mesmo que por acidente. Por isso "The Fly" colabora com a arte e com a nossa percepção da realidade bizarra mais do que qualquer show contemporâneo de efeitos visuais (e digitais) que os computadores de Hollywood conseguem produzir.


# História de Horror Americana - Season 1 - Murder House [link]

2015-11-28 tag_series ^

Pela primeira temporada de American Horror Story (ou História de Horror Americana) pode-se perceber que, apesar de recriar muitas (quase todas) histórias de horror que fazem parte não apenas do imaginário de terror coletivo como foi responsável pelos maiores clássicos do gênero no Cinema, a direção e o roteiro mistos quase sempre referenciam de uma forma tão orgânica essas histórias que fica impossível não apreciar tamanha homenagem que a série proporciona para os fãs de terror.

Ambientado nos tempos atuais, mas com diversos flashbacks que voltam décadas, a história principal gira em torno da família Harmon, formada pelo pai psiquiatra Ben (Dylan McDermott), pela mãe complexada Vivien (Connie Britton) e pela filha única dark-style Violet (Taissa Farmiga). O casal está em uma crise pela traição do marido e tenta reatar a família se mudando para uma casa sombria e cheia de "personalidade" em Los Angeles sendo vendida abaixo de seu valor. Lá eles conhecem mais pessoas do que gostariam, até porque elas aparentemente brotam em volta e dentro da casa, entre elas uma faxineira macabra com dupla... "personalidade" (interpretada tanto por Frances Conroy e Alexandra Breckenridge), um jovem rapaz paciente de Ben que persiste em se manter por perto (Evan Peters como Kit Walker), um homem com metade da face queimada que insiste em se aproximar de Ben (Denis O'Hare, divertido e trágico) e, a quase-protagonista da saga, uma solteirona vizinha que insiste em entrar na casa dos Harmon como se fosse dela mesma, e quanto entra a desgraça parece entrar junto: Fiona Goode (Jessica Lange, "incomodante").

E esses são apenas alguns dos personagens que são introduzidos nos capítulos iniciais. De uma maneira intrigante, a inserção de novas histórias através do passado da casa onde vivem é o meio empregado pela série para apresentar de maneira muito eficiente tanto novos conceitos de horror quanto novos e fascinantes personagens. É assim que conhecemos os fundadores originais da casa: um médico macabro e genial (Matt Ross, intenso) e sua esposa igualmente macabra, mas trágica em seu destino (Lily Rabe). Da mesma forma, a história do casal gay, entre eles o "Dr. Spock" Zachary Quinto, ou outros personagens secundários, conseguem nossa atenção justamente por estarem ligados à casa e de certa forma influenciarem diversos momentos da narrativa.

Com uma fotografia, figurino e direção de arte que consegue trazer à tona a época em que as histórias acontecem e ao mesmo tempo os personagens dessa época para o século XXI sem muito estranhamento, a maior virtude da série é que o terror e o medo não são tão simples de detectar assim, e podem muitas vezes ser subjetivos. A maldade, porém, está presente quase todo o tempo, e ela é o que definir o "Horror" do seu título, pois para ela não existe saída, não há redenção. O pecado original entre os humanos, transfigurado em rancor, ódio, desprezo e até egoísmo, pode ser quase que visto em volta de personagens malignos que criam momentos mais repugnantes do que as próprias mortes sangrentas e bizarras. É assim, por exemplo, que uma cena final de episódio envolvendo Jessica Lange e Denis O'Hare consiga ser tão perversa sem cair uma gota de sangue. Não é no sadismo físico que American Horror Story mantém seus fantasmas, mas em nossa própria mente. E a mente é uma oficina mais diabólica do que nossos olhos podem ver.


# História de Horror Americana - Season 2 - Asylum [link]

2015-11-28 tag_series ^

A segunda temporada de American Horror Story utiliza outra história, outros personagens, com alguns atores da temporada anterior, e outros dramas. Porém, o que permanece marca registrada da série é a maldade. Não a maldade dos demônios espirituais que dominam as trevas, nem dos E.T.s (se há demônios, por que não aliens?) que nos tratam como ratos de laboratório. Essa maldade é fictícia, metafórica demais para que cause algum impacto além do gráfico. A maior maldade ainda continua sendo a do próprio ser humano. Essa é visível nos olhares da inveja, ódio, loucura, medo. É palpável em suas ações. Rotuladores como seres sociais por natureza, não haveria nada com maior senso de comunidade e solidariedade do que um asilo para deficientes mentais. No entanto, homenageando novamente outra grande obra cinematográfica (estou falando, claro, de Um Estranho no Ninho), o Asilo Briarcliff é um simulacro da nossa sociedade para o estudo da crueldade.

Um pouco de trivia sobre o elenco recorrente (ou não) da série:

  • Evan Peters sempre trabalhou mais na TV até ser "revelado" em 2010 com Kick-Ass, o que lhe rendeu uma das melhores participações na franquia X-Men em "Dias de um Futuro Esquecido". Em AHS seu personagem inicial é um sociopata, e uma das jogadas de mestre foi escalá-lo como o injustamente acusado de serial killer Kit Walker em "Asylum", na temporada imediatamente após a "tragédia na escola".
  • O ótimo Denis O'Hare, infelizmente, não participou da segunda temporada, após seu roubo de cena no primeiro ano como o homem de família que tem metade de sua face queimada (e o corpo) pelo seu filho adotivo e que se transforma no divertido, intransigente e tragicamente cômico Larry Harvey.
  • Outra que ficou de fora do elenco de "Asylum" foi Tarsa Farmiga, que na estreia interpretou a ingênua/irônica Violet Harmon. Porém, assim como Frances Conroy, que fez a empregada da casa e a Morte personificada, sua participação ainda mereceria mais.
  • Dylan McDermott figura nas duas primeiras temporadas, mas na segunda parece quase uma participação especial. São dois trabalhos distintos, mas cercados por uma névoa que impede a conexão que temos naturalmente com outros personagens.

Zachary Quinto dispensa apresentações. Passou a ser mundialmente conhecido (sem contar sua participação em 24 Horas) depois de seu vilão Sylar em Heroes (2006-2010) e hoje é o Dr. Spock do novo Star Trek. Inicialmente interpretando um personagem gay e inseguro, seu Dr. Oliver Thredson como o psiquiatra bondoso que parece ter tudo sob controle flerta com diferentes psiquês dos filmes de horror, e mesmo assim parece único. Seguro de seu papel, Quinto esboça poucos sinais de que Dr. Thredson e Chad são o mesmo ator, mesmo com sua atuação mecânica, que geralmente funciona muito bem em seus papéis.

Lily Rabe iniciou com pontas no Cinema e passou logo a atuar para a TV. Após sua participação nas três temporadas acabadas da série, possui três filmes a serem lançados esse ano e no próximo. Seu papel de estreia, como a Sra. Montgomery, é magistral na forma com que mistura seus trejeitos de falsa aristocracia com o próprio descontrole mental. Sua obsessão por um bebê é o que a torna uma péssima mãe, e esse é um dos inúmeros pontos-chave da sua história. Já na temporada Asylum ela é a Irmã Mary Eunice McKee e possui um arco melhor acabado, ou pelo menos um arco, pois diferente dos personagens da estreia, unidimensionais em sua maioria, mas não menos interessantes, o que me cativou em Asylum foi a tentativa dos criadores de explorar um pouco mais as capacidades de interação daquelas pessoas e com isso revelar mais facetas de suas personalidades.

Sarah Paulson estreou em trabalhos para a T.V., incluindo o horror/drama/thriller da década de 90 American Gothic. Realizou trabalhos menores como "Do Que as Mulheres Gostam", "Abaixo o Amor" e até mesmo "The Spirit: o Filme" (e recentemente fez uma pequena ponta em 12 Anos de Escravidão, mas quem não fez?). Em American Horror Story a vidente Billie Dean Howard é seu primeiro trabalho en passant, mas sua verdadeira estreia se deu em "Asylum" e a repórter sem escrúpulos Lana Winters. Os escrúpulos, alás, são uma das coisas que faltam na maioria dos personagens da trama. Sua relação com dois serial killers (e um acusado), porém, a faz tomar a posição dianteira como "experiência curricular".

Jessica Lange, ganhadora de dois Oscars, por Céu Azul (1994) e Tootsie (1982), e indicada a tantos outros, estreou no Cinema como objeto erótico do desastroso remake de King Kong (1976, John Guillermin). Tem feito tanto trabalhos para a telona quanto para a TV, sempre realizando trabalhos relevantes. As primeiras duas temporadas da série lhe renderam duas indicações e um Emmy, e participa também da terceira temporada. Em sua estreia fez a vizinha intrometida Constance Langdon, onde seu passado com sua família acabou se tornando um dos temas mais profundos da temporada. Já como Irmã Jude Martin na temporada Asylum foi lhe dado o merecido arco dramático da saga até aqui, onde ela se transforma de uma versão religiosa da enfermeira Ratched (Um Estranho no Ninho) para a mais trágica das pacientes do asilo. A Morte brinca com ela por todo o tempo, mas são as ilusões perdidas que a deixam cada vez mais amargurada.

A série foi criada por Brad Falchuk e Ryan Murphy, os mesmos que criaram Glee. O curioso é que ambos possuem a mesma relação de homenagear e referenciar obras clássicas, seja do terror ou da música. O roteiro fica por conta de cinco roteiristas que praticamente fazem um rodízio entre os episódios (e temporadas). O mesmo pode-se dizer de seu 13 diretores, embora os mais recorrentes sejam três: Michael Uppendahl, Bradley Buecker e Alfonso Gomez-Rejon, este último com 11 episódios.

O roteiro dessa segunda temporada foca novamente em personagens carismáticos pelos seus objetivos, ao mesmo que tenta criar tramas entre esses personagens enquanto desenvolve suas narrativas principais envolvendo basicamente como as pessoas erradas irão sair do asilo e quem (ou o quê) é o verdadeiro mal de Briarcliff. Muitas vezes com enchimentos de linguiça, um problema frequente em séries com demanda por episódios, as melhores partes são realmente as que abraçam a "causa" do terror como forma de diálogo filosófico sobre a maldade humana. Dessa forma, os assassinatos de pessoas mais próximas é o que torna a série empolgante. Não apenas pelos assassinatos em si, mas a forma com que são desenvolvidos e as consequências de cada ato impensado. Nada parece ser sagrado naquele hospício dirigido pela igreja.

Já a direção, e a edição, que também conta com bastante gente, sofre dos mesmos problemas da primeira temporada, investindo desnecessariamente em zooms televisivos, cortes bruscos e uso indiscriminado de ângulos diagonais e uma decupagem que funciona para "criar o clima", mas não para estabelecer os cenários. A não ser que o objetivo seja não conseguirmos nos localizar pelos corredores do asilo ao longo de quase 13 horas de projeção não é possível sequer saber para que direção fica cada lugar. No entanto, aqui e ali é possível desfrutar de uma abordagem igualmente frenética sem prejudicar a narrativa (como Tom Hooper, diretor quebra-galhos de Discurso do Rei e do horrendo Cats, costuma fazer). Os momentos pontuais bem que poderiam ser mais frequentes.

Entre roteiro e direção quem se salva mais uma vez são os aspectos mais técnicos como direção de arte, fotografia (Michael Goi, principalmente), figurino, trilha sonora (James S. Levine, que também assina Glee e outros trabalhos para TV). Todos esses elementos fazem valer a pena cada nova visita a Briarcliff, mesmo que seja para ouvir mais uma vez aquela música alegre que se contrapõe perfeitamente ao clima desesperançoso da sala de estar do manicômio.

Aguardo não muito ansioso pela próxima temporada (já disponível, se não na Netflix, na locadora Bit Torrent) por medo da direção equivocada e um roteiro mais ou menos esquizofrênico. No entanto, se continuarem as virtudes técnicas e o elenco afiadíssimo, aceitarei mais uma vez uma viagem ao mundo das sombras e dos verdadeiros monstros: a espécie humana no seu pior.


# História de Horror Americana - Season 3 - Coven [link]

2015-11-28 tag_series ^

Já havia falado que American Horror Story consegue impressionar pelos seus quesitos técnicos, a criação de seus personagens e seu aspecto gore que consegue preencher tudo que conhecemos de terror Hoolywoodiano (incluindo o subgênero trash). Porém, uma coisa que a série definitivamente não consegue é criar e consolidar histórias que sejam mais do que um passatempo conhecido como novela. Não há profundidade dramática em AHS, apenas a profundidade de seus objetos cortantes na carne humana.

É por isso que essa terceira temporada, ao focar na vida das bruxas, seus clãs, sua história e a escolha de sua próxima líder, não consegue nunca sair do lugar-comum. Há acontecimentos interessantes e bem explorados, mas nenhum deles deixa de ser previsível ou apenas secundário. Seus personagens não crescem, apenas interagem de maneiras diferentes, muitas vezes sem motivo algum. Há falhas de personalidade, ou personagens sem personalidade. Mesmo Jessica Lange e Evan Peters, acostumados a tirar leite de pedra de suas personas, aqui ficam extremamente presos em personagens engessados.

Mesmo assim, a série mais uma vez realiza meshups interessantes, como misturar Frankestein com Cemitério Maldito, o tipo de coisa que me faz perdoar todas as falhas na direção e essas lentes distorcidas com câmeras inclinadas. Algumas são necessárias, porém. Note como em Asylum a inversão de ângulo era algo que tornava o clima daquele lugar distorcido, como se moral do hospício comandado por uma freira e um Monsenhor fosse também distorcida. No caso das bruxas, olhe como as lentes olho-de-peixe (que deixam o canto distorcido, mas que conseguem incluir todo o recinto em campo) nos leva a pensar como as bruxas conseguem ver tudo ao mesmo tempo. Seus poderes vão além do imaginável. E até colocando bruxas, hierarquias e Vodoo AHS

Porém, por mais que Kathy Bates personifique a "boa e velha" maldade da época da escravidão, ela se transforma rapidamente em mais um passatempo banal, apenas comentando perifericamente sobre o racismo atual, mas sem maiores pretensões. A própria pretensão de chocar e assustar do seriado se perde na leveza de suas bruxarias.


# História de Horror Americana - Season 4 - Freak Show [link]

2015-11-28 tag_series ^

Acho que já disse que AHS não é uma série de terror no sentido convencional -- assustar pessoas -- mas muito pior do que isso: mostrar o horror implícito no ser humano, e ir às últimas consequências do que a violência de seres egoístas, mesquinhos, vaidosos, orgulhosos e invejosos consegue produzir. E o resultado impressona, mas impressiona muito mais a capacidade dessas pessoas de fazer o mal, quase como se o mal nem precisasse depender dessas pessoas para existir, como se fosse materializado e aparecesse diante de nossos olhos sob a forma de ação, representada pelo horror gráfico, mas com um significado muito maior do que chocar pelo ato em si. É a pessoa responsável pelo ato -- ou às vezes apenas a situação -- que chocam muito mais.

Nesse sentido ele manteve seu tema na terceira e mais fraca temporada, onde um clã de bruxas contemporâneas lutava pelo poder supremo. Da mesma maneira em sua primeira temporada, onde uma coletânea de fantasmas e estereótipos clássicos do imaginário estadunidense (como o mass killer). E, claro, na ótima segunda temporada e um convento/hospício que atinge os limites do sadismo mantendo o bom humor.

Portanto, nada mais natural que explorar mais uma figura desse imaginário coletivo, dessa vez com um tom mais europeu e na década de 50 na Flórida, com um circo de horrores que contém, seguindo a cartilha básica da série, uma coletânea de "aberrações" da natureza, ou pelo menos como eram vistas na época. Dessa coletânea, ela é enfraquecida com figuras como o mocinho que só tem mãos estranhas (Evan Peters, já se repetindo) ou a alemã de guerra que luta por um sucesso que não lhe pertence (novamente Jessica Lange, a vergonha coletiva que diverte). Ainda assim, o palhaço desfigurado que caça crianças e jovens mulheres à noite, a mulher-anã e sua doçura contagiante, o psicopata milionário mimado (ecos de Psicopata Americano encarnados no ótimo Finn Wittrock) e outros freaks menos impressonantes como a mulher-barbada (Kathy Bates em mais uma atuação interessante) e um homem com braços de barbatana, uma mulher gigante e uma mulher com três peitos (ecos de... deixa pra lá). Com pelo menos uma participação especial de destaque, Neil Patrick Harris (de How I Met Your Mother) faz um ventríloquo esquizofrênico que me deixa incomodado pela sua origem e seu destino trágicos.

Como sempre começando morno, seus episódios televisivos divertem moderadamente, enquanto vão apresentando seus personagens em flashbacks cada vez menos orgânicos e mais expositivos (o primeiro, do palhaço assassino, é o melhor deles). Da metade para o final temos um ritmo mais acelerado graças às mortes que começam a ficar mais frequentes. Porém, seja no começo ou no final, em ambos temos episódios que sobrevivem por si só, escritos não por acaso por James Wong e Jennifer Salt, responsáveis pelos melhores momentos da série em questão de roteiro, auxiliados obviamente por uma equipe de diretores que já se acostumou em mostrar o horror de uma maneira fascinantemente gráfica. Infelizmente, para se "deliciar" com Edward Mordrake (dividido em duas partes), Orphans e Magical Thinking, assistir a temporada toda é uma necessidade, o que não é ruim, e está acima da média de toda a série, mas que se perde em desvios televisivos, como diria um dos personagens, chatos.

Das virtudes técnicas, a que mais se destaca é a direção de arte auxiliada pelo figurino e fotografia. Todas essas equipes contribuem imensamente para construir um universo que meio que homenageia os filmes desse sub-gênero das décadas de 50, 60 e 70, quase sempre rodadas como filmes B e que passavam nas madrugadas da televisão aberta. O tom meio amadorístico da fotografia, e os elementos em cena meio empoeirados e bagunçados, dá um ar nostálgico e que funciona muito melhor do que a maior parte do roteiro.

O elenco, obviamente, participa como parte itinerante da viagem surreal pelo horror da natureza humana. Acostumados em viver seus personagens por muito tempo, logo no começo já estão mais que acostumados com seus papéis, mas são subutilizados na maior parte do tempo. Felizmente, quase todos possuem momentos marcantes, e eu separo particularmente os momentos mais humanos da série, onde entendemos as reais motivações para os atos de bondade de seus poucos personagens virtuosos. Mas é claro que a série está aí para apresentar o pior do ser humano, e esses momentos possuem seu arsenal de choques visuais. Não é um terror de adolescentes, até onde conheço adolescentes descerebrados que fazem jorrar filmes medíocres de pessoas perdendo as cabeças nas salas de cinema (que aterrorizante!).

Com uma conclusão estranhamente apressada (afinal, é um filme de 10 horas e ainda assim ninguém pensou em algo mais coeso?), os dois episódios finais são uma decepção, ironicamente se tornando piores do que os dois últimos episódios da temporada anterior. Isso pelo menos colabora para essa nostalgia que veio crescendo com os dois anteriores a esses, que são os já citados, e que incrementam em muito esse universo. O resto, bom, é Jessica Lange mostrando o que tem de pior. A série não melhora nem piora com essas duas horas finais.

PS: Ah, eu citei que tem uma mulher com duas cabeças? Ou melhor dizendo, duas irmãs com a mesma metade de baixo? Não importa muito, é Sarah Paulson em versão dupla. Espero que suporte as reviravoltas da câmera para disfarçar as limitações técnicas dos efeitos que usaram. Fica difícil saber se é homenagem de filme B ou a produção foi realmente medíocre nesse aspecto. Como curiosidade, note o uso da parte direita da tela para a irmã dominante e a esquerda para a submissa. De resto, ignore essa atuação mais uma vez embaraçada de Paulson.


# Beavis and Butt-head Conquistam a América [link]

2015-11-28 tag_movies ^

Segunda aventura longa-metragem da dupla de adolescentes descerebrados, o humor irreverente de Beavis e Butt-Head sempre será o maior atrativo da animação para adultos (e adolescentes descerebrados como eu, alguns anos atrás). A crítica da sociedade americana começa a partir do momento em que eles não são os únicos idiotas desse universo, mas toda uma nação. A diferença é que os adultos, a despeito de seu conhecimento e suas funções, continuam sendo seres humanos estúpidos auto-centrados. Por comparação, portanto, os dois jovens parece até que simpáticos, nem que seja pela sua ingenuidade.

Nessa história a TV deles é roubada e em uma série de coincidências eles acabam sendo confundidos com terroristas que roubam um vírus letal e que pode matar quatro estados rapidamente. Toda uma perseguição ocasional é formada, e os dois jovens acabam fazendo parte de uma das road-movies mais icônicas do Cinema.

Infelizmente, todas as situações improváveis em que eles se metem são improváveis demais para fazer sentido, e diferente de seu primo espiritual -- "Débi & Lóide" -- aqui é difícil aceitar as situações sem ficar com uma pulga atrás da orelha. Ainda assim, a necessidade que o roteiro tem de juntar os mesmos personagens em toda essa aventura torna tudo uma curiosidade constante, e para quem assiste a primeira vez vai se divertir moderadamente todo o momento.

Com um ponto alto o encontro dos seus pais no meio do deserto, uma situação que o longa não precisa explicar com muitos detalhes, Beavis and Butt-head Conquistam a América é uma versão longa da série da MTV, que arrisca oferecer diversão descerebrada sem muita lição de moral. Se saem muito bem, mas logo são esquecidos.


# How to Get Away with Murder - Primeira Temporada, Episódios 1 ao 3 [link]

2015-11-28 tag_series ^

Assisti alguns episódios deste que parece ser aquelas séries que causam sensação, talvez pelo seu final. O detalhe é que não importa como, todo novo episódio parece querer voltar nas mesmíssimas cenas finais, onde os estudantes de direito se metem em um assassinato e precisam... adivinhem? Lavar suas mãos.

Sem muita originalidade sequer na escola desses estudantes, o herói dessa empreitada, o jovem entusiasta Web Giggins (Alfred Enoch), é escolhido pelo seu empenho, apesar de até então não ter estudado muito nas aulas de Annalise Keating (Viola Davis), a professora que oferece prêmios baseado no desempenho de seus alunos em casos reais que analisam. Não faz muito sentido esse nível de aproximação dos estudantes de casos reais, mas faz muito menos casos de homicídio, muitas vezes noticiado na mídia (e que esses casos aconteçam tão frequentemente).

Com uma inusitada direção mista em seus primeiros episódios, impressiona que mesmo com tantas visões diferentes, o resultado final fique igualmente televisivo e medíocre, apostando em trocas de cenas com o avanço em câmera rápida e no já citado flashback do final de ano da turma e sua decisão em como se livrar do assassinato que fizeram parte. Como testemunhas ou não, é um detalhe que iremos descobrir aos poucos.

Usando a professora como uma guia técnica que possui uma moral deturpada -- onde sua traição e detalhes do seu marido constituem basicamente o enredo principal -- How To Get Away... é mais um exemplo de como podemos pegar ideias interessantes que poderiam muito bem preencher duas horas ou três de um longa-metragem e esticá-las para caber em uma série de mais de 10 horas por temporada em que quase nada chama a atenção.


# Desventuras em Série [link]

2015-11-29 tag_movies ^

Ninguém escuta as crianças. Essa é a premissa básica que torna possível toda a série de situações mortais em que três jovens órfãos ficam à mercê de um cruel parente distante em busca da herança dos afortunados Baudelaire.

Tentando manter uma narrativa coesa, ainda que episódica, o diretor Brad Silberling (Cidade dos Anjos) recebe a imprescindível ajuda de uma equipe de direção de arte, fotografia e figurino que recriam o design surrealista usado nos livros homônimos de Lemony Snicket (ele próprio é um personagem, o escritor que narra a história, interpretado por Jude Law).

Com o uso de enquadramentos de dois planos que tornam o temido Conde Olaf envolvendo os meninos, além dos jogos em contra-luz que usam a silhueta dos personagens como desenhos em uma pintura 2D, Desventuras em Série é muito mais um filme de arte do que de aventuras. Um filme que contém muito mais atuações exageradas em prol da linguagem do que artimanhas de roteiro (muito embora a sequência na casa do penhasco seja particularmente bem executada nesse sentido, já que todos os temores de Tia Josephine se tornam realidade).

Com pelo menos uma sequência memorável, onde um carro no meio dos trilhos é usado como artifício dramático e elementos visuais que misturam o velho com o novo (como um carro que toca música através de um sistema de rolos de fita), Desventuras em Série distrai e impressiona pelo visual e conta uma história em um ritmo frenético, sendo exagerado em todas suas pontas.

E com pelo menos duas atuações dignas de nota -- Jim Carrey e suas maquiagens, e Meryl Streep e seus óculos que balançam, ambos contracenam -- o filme também ganha cores devido a seu elenco britânico e afiado com a proposta teatral do projeto.

Além de apresentar a jovem Emily Browning, que mais tarde participaria de empreitadas muito mais adultas.


# Clube de Compras Dallas [link]

2015-11-30 tag_movies ^

Nós, libertários, somos frequentemente acusados de não termos coração quando dizemos que as pessoas deveriam ser livres para buscar sua própria felicidade, mesmo que isso implique que os mais desafortunados tenham que se virar muito mais. No entanto, quando esse pensamento chega no sistema de patentes estadunidense, mais especificamente as drogas que tentam amenizar a dor e prolongar a vida de pessoas com HIV/AIDS, torna-se claro que a manipulação estatal nunca teve por princípio a busca da felicidade.

Assistindo Clube de Compras Dallas e acompanhando as desventuras de seu personagem da vida real, Ronald Woodroof (Matthew McConaughey), se torna cada vez mais claro que a felicidade nunca poderia estar nas mãos de qualquer instituição, por mais bem-intencionada e com mais poder que esta tivesse. Vendo um hustler texano apostar suas últimas fichas -- 30 dias de vida, de acordo com o médico que o diagnosticou com a doença -- para buscar qualquer remédio que conseguisse aumentar suas chances, fica óbvio que a busca pela sobrevivência sempre esteve nas mãos deste indivíduo. São as pessoas, cheias de imperfeições e preconceitos, donas de seu próprio destino, se assim a quiserem. Já vimos isso no ótimo À Procura da Felicidade (repare o título), com Will Smith, também baseado em um personagem da vida real. Porém, aqui temos um caso de vida ou morte mais intenso, e que exige que a pessoa envolvida utilize todas suas habilidades e -- o mais importante -- sua vontade de viver para que consiga o que quer; independente de quem ele votou na eleição passada (meu chute: nunca votou).

Obviamente que Ron transforma sua busca em uma forma de ganhar dinheiro, e isso também está na lista de possibilidades que uma pessoa pode fazer. Aliás, uma das maiores virtudes do filme é fazer-nos acompanhar essa trajetória do protagonista em uma busca incessante por um meio de trazer drogas não-autorizadas pelo órgão regulador americano para as veias dos pacientes em tratamento e em grupos de apoio, e como consequência dinheiro para os bolsos de Ron e Rayon (Jared Leto, ótimo), uma mulher em corpo de homem com quem ele estabelece uma parceria comercial que determina o nível de comprometimento com seu novo negócio de sobreviver e manter vivo seus clientes. Ron é homofóbico, mas não deixa isso atrapalhar sua empresa, até porque a grande maioria das pessoas que ajuda é gay. Eis um exemplo em que as pessoas deixam de lado seus preconceitos para que ambos os lados saiam lucrando.

A câmera do diretor Jean-Marc Vallée (Livre) se mantém na mão, balançando todo o tempo, fruto de um filme documental, biográfico e urgente. O roteiro conjunto de Craig Borten e Melisa Wallack não se importa em incomodar os espectadores mais espertos martelando obviedades. Eles preferem deixar a doutora Eve (Jennifer Garner) martelar a parede de sua casa e deixar vários buracos abertos para pendurar um quadro de flores torto pintado por uma cigana mãe de um de seus pacientes, e com isso sutilmente demonstrar o turbilhão de sentimentos e ideias que afloram quando falamos de pessoas não-conformistas e sem fronteiras que desafiam as leis da gravidade estatal, que jogam um peso incomensurável na liberdade humana. Note como é difícil se desvencilhar de agentes engravatados mesmo tentando vender vitaminas e minerais, já que isso implica em menos lucros para os fármacos que passaram pela longa fila de processos para ganhar um carimbo da casa branca. Mas note ao mesmo tempo o grau de comprometimento de Ron em seus disfarces e sua ênfase em se tornar crível em suas muitas passadas pela alfândega, fazendo crer a si mesmo que sempre foi um padre com câncer.

Clube de Compras Dallas é sobre olhar um médico vestir um nariz de palhaço para amenizar a dor que indiretamente pode estar causando a seus pacientes por estar "seguindo ordens" (ou seja lá qual for a recompensa por esse ato vil) e em seguida olhar para a figura de um palhaço entristecido de enfeite jogado no canto de uma sala, questionando qual o sentido em forçar as pessoas a seguir em fila para seu leito de morte, drenando no caminho todas as esperanças que elas teriam de tentar algo novo. As melhores cenas do filme possuem sutis rimas a respeito da humanidade que falta ou sobra em seus personagens. E não se engane quando falo "humanidade". Minha noção de ser humano é ter lucro, todo santo dia, realizando um trabalho que as pessoas querem, ou trocando com elas. Ou simplesmente jantar junto e trocar experiências. Tudo onde dois ou mais ganham é ter lucro nessa vida. É por isso que, mesmo soando estranho em nossas cabeças condicionadas, é mais do que justo que o herói do filme receba aplausos infinitos. Não por sua bravura, nem pela sua busca de seu próprio lucro ou felicidade. Apenas por ser humano, e questionar o sistema em que vive, quando seu maior bem é colocado em xeque por sistemas inescrupulosos de racionalização: sua própria vida.


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